Portugal tem condições únicas para liderar na agricultura regenerativa
Um estudo da consultora Savills Portugal conclui que o país reúne condições para se tornar uma referência europeia em agricultura regenerativa até 2030, numa altura em que biodiversidade, disponibilidade de água e saúde dos solos começam a pesar cada vez mais no valor da terra.
O relatório "The Living Asset – Rebuilding Portugal’s Natural Capital Through Regenerative Agriculture", descreve Portugal como um “mercado paradoxal”: um país com enorme diversidade agrícola e ecológica, mas onde a agricultura representa menos de 3% do valor acrescentado bruto nacional.
Segundo o estudo, é precisamente essa diferença entre potencial natural e peso económico que cria uma oportunidade de investimento. A lógica está a mudar: a terra já não vale apenas pelo que produz atualmente, mas pela capacidade de continuar produtiva no futuro.
“Estamos a assistir a uma reconfiguração profunda da forma como a terra agrícola é avaliada”. As palavras são de Alexandra Gomes, orientadora da investigação que, citada em comunicado, acrescenta que "já não basta olhar para o rendimento das culturas": "A saúde do solo, a água e a biodiversidade tornaram-se variáveis financeiras tão relevantes quanto as tradicionais”.
Na prática, isto significa que fatores antes vistos apenas como ambientais passaram a ser indicadores económicos. Solos mais férteis, maior retenção de água ou menor erosão podem traduzir-se em ativos mais resilientes, com acesso facilitado a financiamento verde e a uma maior valorização a longo prazo.
O estudo estima que a terra agrícola em Portugal possa gerar retornos anuais entre 5% e 7%, acima dos cerca de 3% normalmente associados aos ativos imobiliários considerados mais seguros.
Mas o que muda com a agricultura regenerativa?
A agricultura regenerativa assenta em práticas que procuram recuperar os ecossistemas agrícolas em vez de os desgastar. Inclui técnicas como culturas de cobertura, redução da mobilização dos solos, compostagem, pastoreio integrado e gestão mais eficiente da água.
O objetivo é aumentar matéria orgânica no solo, melhorar retenção de água, reduzir dependência de fertilizantes químicos e tornar as explorações mais resistentes à seca e à instabilidade climática.
Segundo o relatório, entre 40% e 60% da área cultivada em Portugal já integra pelo menos uma prática regenerativa. Ainda assim, apenas entre 10% e 15% opera num modelo totalmente integrado.
A Savills antecipa cinco grandes mudanças para a próxima década: maior peso da resiliência climática na valorização da terra, integração do chamado capital natural nas avaliações financeiras, procura crescente por produtos sustentáveis, especialização regional e monitorização mais rigorosa das práticas regenerativas.
A amêndoa tornou-se o exemplo mais visível
O caso mais evidente desta transformação está no amendoal. Em menos de dez anos, Portugal passou a terceiro maior exportador líquido mundial de amêndoa, impulsionado sobretudo pelos projetos agrícolas no Alentejo e em Castelo Branco.
Grande parte desta expansão aconteceu graças aos perímetros de rega do Alqueva e de Idanha-a-Nova, que atraíram investimento internacional e transformaram o sul do país num centro de produção intensiva.
Mas o crescimento acelerado também aumentou a pressão sobre a água e os solos, precisamente os recursos que a agricultura regenerativa procura preservar.
“Estas práticas representam provavelmente a evolução mais relevante da agricultura desde a introdução dos fertilizantes químicos”, afirma também em comunicado Bruno Amaro. “O amendoal destaca-se como uma das culturas onde os resultados têm sido mais expressivos”, acrescenta.
O relatório alerta que o futuro do setor dependerá da capacidade de aumentar retenção de água nos solos, reduzir erosão e proteger a produtividade agrícola num cenário de maior pressão climática.
Alentejo, Douro e Açores entre os territórios com mais potencial
O estudo identifica várias regiões portuguesas com condições favoráveis para escalar modelos regenerativos. O Alentejo surge como principal “região bandeira”, sobretudo pela dimensão das explorações agrícolas e pela necessidade crescente de sistemas resistentes à seca. O Douro aparece ligado à viticultura regenerativa, o Oeste à produção hortofrutícola e os Açores ao pastoreio regenerativo e produção leiteira.
Além da diversidade ecológica, a Savills sublinha que os preços da terra em Portugal continuam abaixo de mercados concorrentes como Espanha, criando margem para valorização futura.
Ao mesmo tempo, cresce a procura internacional por produtos de baixo impacto ambiental e por investimentos ligados aos mercados de carbono, biodiversidade e gestão da água.