Portugal teve 26 mortes por afogamento em apenas dois meses e muitos dos salvamentos estão a ser feitos por surfistas 

Portugal teve o pior início de ano em afogamentos desde 2017. Para responder ao aumento de emergências nas praias, surfistas de todo o país estão receber formação certificada em salvamento e suporte básico de vida, graças ao projeto Surf & Rescue.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
14 mai. 2026, 08:00

Portugal registou 26 mortes por afogamento nos primeiros dois meses de 2026, o pior arranque de ano desde 2017. Ao mesmo tempo, as praias continuam cheias muito para lá da época balnear, muitas delas sem qualquer vigilância. É nesse vazio que os surfistas acabam, muitas vezes, por ser os primeiros a responder a emergências no mar.

Esta realidade está a aumentar e é nesse contexto que a Associação de Escolas de Surf de Portugal (AESP) e o Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) querem agora criar uma rede organizada de salvamento e resposta rápida.

Criado para aproximar surfistas e nadadores-salvadores, o projeto Surf & Rescue nasceu precisamente da constatação de que muitos praticantes de surf já fazem salvamentos de forma informal, sem preparação técnica certificada.

A iniciativa já promoveu diversas formações em praias do norte a sul do país, nos últimos seis anos. Neste mês de maio, arrancam formações em Ovar, Espinho e Portimão, com uma novidade inédita: a formação certificada para utilização de desfibrilhadores automáticos externos (DAE), acompanhada da instalação destes equipamentos em várias escolas de surf do país.

“Quem está nas praias durante o ano inteiro, sobretudo nas não vigiadas, são os surfistas”, explica João Guedes, formador do Surf & Rescue e membro da primeira geração de surfistas do Porto, em entrevista ao Conta Lá. “E se os surfistas não estivessem lá, garantidamente o número de mortes seria muitíssimo mais elevado”, acrescenta.

Segundo João Guedes, o número real desses resgates continua longe das estatísticas oficiais. “São centenas, para não dizer milhares, de salvamentos feitos durante o ano inteiro e dos quais ninguém sequer tem conhecimento”, afirma.

A edição deste ano inclui formações que são gratuitas e uma vertente avançada, o Surf & Rescue 2.0, destinada a participantes que já frequentaram ações anteriores desde 2020. Durante dois dias, os formandos recebem certificação INEM em Suporte Básico de Vida com DAE, formação em primeiros socorros, administração de oxigénio e técnicas avançadas de salvamento.

Além da componente formativa, o projeto quer agora equipar escolas de surf com desfibrilhadores automáticos externos. Nesta fase inicial serão instalados dez equipamentos em escolas selecionadas através de critérios ligados à preparação técnica e capacidade de resposta em emergência.

“Em Portugal, uma pessoa só pode utilizar um desfibrilhador se tiver formação certificada. É exatamente isso que nós fazemos nestas ações”, explica João Guedes ao Conta Lá.

“O objetivo é que algumas praias passem a ter desfibrilhadores acessíveis para toda a gente, não apenas para os alunos das escolas”, refere. “Isto devia ser obrigatório nas praias, mas como não é, estamos a tentar criar essa resposta”.

 

Praias portuguesas mudaram

Para João Guedes, o aumento dos afogamentos está diretamente ligado à transformação das praias portuguesas nos últimos anos. O mar deixou de ser procurado apenas durante o verão e há cada vez mais pessoas nas praias ao longo de todo o ano, incluindo turistas sem qualquer experiência em ambiente marítimo.

“Temos cada vez mais turistas e muitos deles nunca viram o mar na vida, vêm de países onde não há”, alertou o surfista. “Chegam à praia sem qualquer noção dos perigos da água”, acrescentou.

O formador considera que os meios de vigilância e salvamento não acompanharam esse crescimento: “As praias estão a aumentar, há mais gente no mar, mas os recursos continuam insuficientes. Tem de haver vigilância permanente nas praias, mais equipamentos, mais recursos e mais pessoas preparadas”.

A preocupação estende-se também à falta de reconhecimento do papel que surfistas e escolas de surf já desempenham na segurança das praias fora da época balnear. “Ainda estamos muito dependentes da boa vontade e do interesse dos surfistas”, admite João Guedes, acrescentando que “estamos a falar de vidas humanas e isso tem de começar a ser encarado com muito mais responsabilidade”.

As formações básicas Surf & Rescue realizam-se a 18 de maio, na Praia de Esmoriz, em Ovar, e a 28 de maio, na Praia da Rocha, em Portimão. Já a formação avançada Surf & Rescue 2.0 decorre nos dias 21 e 22 de maio, na Praia da Baía, em Espinho, tem um custo de 90 euros e está limitada a 24 vagas.

Desde a criação do projeto, mais de 1300 pessoas já participaram nas ações de formação. Segundo João Guedes, a procura continua a crescer todos os anos: “Hoje em dia basta abrirmos inscrições e praticamente esgotamos logo”.