Produção de pera rocha com quebras de 50% nos últimos anos. Fogo bacteriano é uma das causas
A produção de pera rocha, uma variedade portuguesa da região Oeste e que é maioritariamente exportada, tem caído exponencialmente nos últimos anos, segundo a Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha (ANP).
“Nos últimos quatro anos temos tido quebras na ordem dos 50%", avança o presidente da associação, Filipe Ribeiro, em entrevista ao Conta Lá.
Entre as causas apontadas pela associação está o fogo bacteriano, uma doença provocada pela bactéria Erwinia amylovora, que afeta as culturas de forma muito rápida.
“É uma doença que não tem qualquer impacto na dieta alimentar, na parte humana. No entanto, afeta as plantas e atua de tal forma rápido que algumas não conseguem reagir à progressão da doença. E quanto mais jovem é a planta, mais dificuldade tem em reagir a essa mesma infeção”, explica o presidente da ANP.
O fogo bacteriano obriga muitas vezes ao abate das árvores, diminuindo a produção efetiva por hectare. Filipe Ribeiro explica que a progressão da doença é muito maior no início das plantações, na fase jovem da planta, porque “há mais azoto a circular”. Os insetos polinizadores são transmissores da doença, que ataca mais na primavera, altura “em que a planta está mais exposta e mais vulnerável a esta infeção”.
"Juntando a bactéria a outro problema que temos, que é a estenfiliose, as manchas castanhas, podemos dizer que nos últimos quatro anos temos tido quebras na ordem dos 50% da produção daquilo que seria expectável", sublinha.
O responsável adianta, no entanto, que existem algumas soluções para mitigar a doença: “Vírus que atacam a bactéria, que são os fagos, existem também produtos naturais que afetam a bactéria. A limpeza no nosso ecossistema do pomar também é bastante importante”, enumera.
Uma outra opção passaria pelo melhoramento genético, para que a planta se tornasse mais resistente. No entanto, este caminho, diz a ANP, ainda está envolto em "tabu".
“Sabemos que o melhoramento genético é uma ferramenta que demora muito tempo a obter e também tem sido objeto de muito fundamentalismo. Isto é, confunde-se transgénicos com plantas que efetivamente são mais resistentes a determinadas doenças e foi criado um tabu à volta disso”, admite o presidente da Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha.
“É claro que a planta tem uma capacidade de resistência, mas isso não surge de uma forma natural, também tem de ser auxiliado por aquilo que são as ferramentas dos defensivos agrícolas”, defende.
Filipe Ribeiro sublinha que a União Europeia tem sido morosa nos processos de capacidade de resposta ao controlo de pragas e doenças: “Na Europa, parte das vezes, sem qualquer fundamento científico, acaba-se com uma solução e não existe outra em troca. Se a União Europeia limita cada vez mais a nossa atuação do ponto de vista da prevenção dessas pragas e doenças, é lógico que não vamos estar num estado competitivo em relação a outras geografias no mundo onde essas soluções são permitidas.”
O responsável acrescenta ainda que a Europa está a ficar para trás: "Arriscamos deixar de ser uma potência agrícola para passarmos a ser uma potência importadora. (...) Isso não está correto. Temos de reagir contra isso. (...) A Europa não se pode transformar num museu da agricultura, mas tem de se tornar no sítio do progresso da agricultura”, conclui.
"Mesmo com todos estes constrangimentos”, mais de metade da produção da pera rocha é exportada. Tanto em 2024, como em 2025, a produção desta fruta rondou as 115 mil toneladas, 58,7% para exportação. Brasil, Marrocos, Alemanha e Reino Unido são os principais mercados.