Produção moderna e pouca notoriedade: setor do azeite debate desafios em Moura
O Congresso Nacional do Azeite regressa este ano a Moura, reunindo produtores, investigadores e representantes do setor num momento de reflexão sobre os desafios e oportunidades de uma área que tem vindo a transformar-se em Portugal, mas que ainda procura afirmar-se no mercado internacional.
A nona edição do evento pretende consolidar-se como um espaço de referência para o debate e partilha de conhecimento no setor olivícola. Em entrevista ao Conta Lá, o presidente do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL), Manuel Norte Santo, explica que o objetivo passa por “colocar este evento na agenda do setor” e reunir “todos os intervenientes (…) num só dia a debater os vários temas atuais para o setor olivícola”, sublinhando que “já fazemos isto há nove anos consecutivos, sempre com muito sucesso” e que “já é um evento de grande importância no nosso setor”.
Ao longo dos anos, o congresso tem assumido um papel agregador, juntando diferentes agentes da cadeia de valor – da produção à distribuição - num espaço comum de debate. “Sejam produtores, investigadores, fornecedores, representantes de grandes superfícies de retalho”, todos são chamados a participar, numa lógica de partilha e articulação que procura acompanhar a evolução do setor.
Inteligência artificial ainda com impacto reduzido, mas com potencial crescente
Entre os temas em destaque nesta edição estão a inovação tecnológica e a inteligência artificial, embora o impacto destas ferramentas ainda seja limitado no setor do azeite. Manuel Norte Santo reconhece que “esse é um tema que está na ordem de todos os setores”, mas admite que, no caso do azeite, “ainda tem um impacto residual”.
Apesar disso, o potencial é significativo e já existem projetos em curso, tanto ao nível da agricultura como da indústria. “Existem empresas já a desenvolver projetos e investigações de implementação de inteligência artificial na agricultura e na indústria, no nosso caso na extração de azeite, mas na realidade ainda não há grande impacto”, explica, apontando para a importância de criar espaços de discussão onde estas iniciativas possam ser apresentadas e debatidas.
Nesse sentido, o congresso procura aproximar inovação e necessidades reais do terreno, permitindo que produtores e empresas identifiquem áreas prioritárias de investimento. A partilha de experiências e a apresentação de projetos emergentes assumem, assim, um papel central na programação desta edição.
Setor moderno enfrenta desafio de afirmação internacional
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, o setor do azeite em Portugal continua a enfrentar dificuldades ao nível da competitividade externa. A modernização das infraestruturas e das práticas agrícolas contrasta com uma ainda reduzida notoriedade internacional.
“Temos dos lagares mais modernos do mundo, de última geração; temos as práticas agrícolas mais inovadoras nos nossos olivais”, destaca Manuel Norte Santo, sublinhando, no entanto, que “tardamos em dar o passo seguinte e em converter esta vantagem competitiva na produção em vantagem comercial”.
O principal desafio passa, assim, pela afirmação da marca nacional nos mercados externos. “A notoriedade do azeite português fora de portas ainda não é a maior”, admite, reforçando a necessidade de “criarmos uma ‘Marca Portugal’, uma marca ‘Azeite de Portugal’ mais forte”, capaz de valorizar o produto e reforçar o seu posicionamento global.
Moura volta a assumir papel central no setor
O regresso do congresso a Moura reflete a importância do território na evolução recente do setor olivícola. A escolha do local acompanha uma estratégia de rotatividade por diferentes regiões de referência, mas também reconhece o papel central que Moura tem desempenhado.
“Este ano regressamos a Moura, porque Moura também é um dos epicentros desta transformação do nosso setor”, explica o presidente do CEPAAL, acrescentando que se trata de “um regresso que já era ambicionado há algum tempo”.
A edição deste ano organiza-se em torno de três grandes eixos – práticas agrícolas, inovação tecnológica e comercialização - promovendo o debate sobre temas distintos, mas interligados. Além das sessões, o encontro assume também uma dimensão mais informal, sendo “um momento de convívio e de troca de experiências e de informações muito agradável”, onde diferentes intervenientes do setor se cruzam e partilham perspetivas.
Com a presença de representantes políticos, associações e empresas, o Congresso Nacional do Azeite reforça-se como um espaço de articulação e reflexão estratégica, num setor que procura consolidar o seu crescimento e ganhar maior reconhecimento dentro e fora de Portugal.