Produtores florestais querem parques de receção de madeira
A criação de parques de madeira e a limpeza de zonas devastadas pela depressão Kristin, para evitar pragas fitossanitárias e aumento da carga combustível, e alargamento dos prazos do Plano de Recuperação e Resiliência são propostas de produtores florestais.
Segundo o presidente da Federação Nacional de Associações de Proprietários Florestais (FNAPF), Luís Damas, “há muita árvore no chão”, na parte norte de Abrantes, Sardoal, Ferreira do Zêzere (distrito de Santarém) e Vila de Rei (Castelo Branco), “mas onde há mais perdas é na zona da Marinha Grande” e Leiria, pois “a nível florestal foi tudo a eito”.
Em declarações à Lusa, o dirigente da FNAPF, que junta 41 organizações do norte, centro e sul do país, recordou um caso idêntico “em França há muitos anos”, quando em consequência da destruição de vastas áreas florestais, foram criados “grandes parques de madeira e veio muita madeira de lá para cá”.
Na sequência da devastação provocada pela depressão Kristin, Luís Damas recomenda que sejam criados parques de receção de madeira para o Estado proteger o valor do arvoredo caído e também “por uma questão de sanidade vegetal”.
“Podemos ter também problemas fitossanitários se ninguém tirar nada e é muito volume de madeira, que é uma pena o país desperdiçar, para biomassa, celulose ou para serração, para postes, que se vai notar daqui a uns anos, porque os pinheiros foram cortados e os eucaliptos arrancados”, explicou.
Por outro lado, se todo o material lenhoso secar, ficará muito mais combustível que será preciso limpar na altura da prevenção de fogos rurais.
“Os nossos sapadores andam só a ajudar na limpeza das vias de comunicação, para desobstrução de estradas, e ninguém está nos caminhos rurais, porque não é prioridade, mas se isso não se tira antes dos fogos, como é que a gente passa, pois há quilómetros e quilómetros de caminhos florestais inacessíveis”, questionou.
O responsável da FNAPF não tem dúvidas que, se a força da depressão tivesse ocorrido durante o dia, em vez de madrugada, “morria muita gente, parada na estrada, com as árvores que caíram”.
O elevado grau de destruição de infraestruturas, nomeadamente de comunicações, serviu para se “ver a fragilidade” em várias áreas e a própria sede da FNAPF está “em contingência” devido à ameaça de cheias, no Rossio ao Sul do Tejo, entre Abrantes e a Bemposta, perante a necessidade de gestão da barragem espanhola de Alcântara, na província de Cáceres.
Quanto aos prejuízos, para já não arrisca números, apesar de haver “zonas totalmente devastadas, mesmo em plantações novas, com quatro, cinco anos de eucalipto e pinho” e “há muitas plantações, como os solos estavam muito encharcados, com milhares de árvores tombadas”, incluindo “olivais na zona de Castelo Branco, que foram arrancados”.
Nas zonas ardidas, o dirigente da FNAPF apontou que “a grande sorte” é que a água que tem chovido é tanta que, nos rios da zona da Serra da Estrela e do interior, em vez de correr “tudo preto”, vai “em castanho, porque o débito é muito grande”.
Em relação ao arvoredo tombado pelo vento, Luís Damas explicou que, “quando um pinheiro está de raízes fora, já não há nada a fazer” e, nos exemplares inclinados, da experiência com eucaliptos, podem ser escorados com estacas, “mas o solo tem que estar muito molhado para não partir a raiz”, pois do lado em que se partirem “morre tudo”.
“É uma operação muito demorada e muito custosa. O pessoal dos olivais vai tentar fazer isso, porque a árvore já tem um valor económico grande e já tem produção, e a oliveira também é mais resistente”, referiu, admitindo, no entanto, que a taxa de sucesso “é baixa e fica sempre débil” e “às vezes nunca mais é a mesma árvore” e fica “ali a definhar”.
O representante dos produtores florestais salientou ainda o “problema grave” dos projetos das AIGP (Áreas Integradas de Gestão da Paisagem), financiadas pelo Fundo Ambiental e pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), uma vez que “ninguém consegue ir agora aos terrenos” e também “ficou muita zona devastada abrangida pelo PRR”.
Nesse sentido, a Federação Nacional das Cooperativas de Produtores Florestais (Fenafloresta) deverá propor ao Governo a prorrogação de prazos para projetos financiados pelo PRR e Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), mecanismos de regulação de preços de matéria-prima e criação de parques de receção e armazenamento para conservar a madeira verde, permitindo um escoamento faseado.
A organização defende ainda a retirada rápida da madeira caída “para evitar a propagação de pragas fitossanitárias e reduzir a acumulação de carga combustível”, agravando “exponencialmente o risco de incêndios no próximo verão”.