Programa municipal Malha, do Porto, comemora 30 anos da classificação pela UNESCO

Com um ano de programação multidisciplinar entre julho e junho de 2027, Malha vai "pensar, olhar, viver o Porto". Programa comemora 30 décadas de classificação pela UNESCO.
 
Agência Lusa
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14 mai. 2026, 20:41

O programa municipal Malha, Património de Pessoas quer "pensar, olhar, viver o Porto" após 30 anos da classificação pela UNESCO do Centro Histórico com um ano de programação multidisciplinar entre julho e junho de 2027.

Para o presidente da câmara, Pedro Duarte (PSD-CDS-IL), este “é um programa muito animador e auspicioso”, essencialmente “focado nas pessoas” e que permite, ao celebrar 30 anos da classificação como património mundial, “em simultâneo projetar o dia de hoje e o dia devir”.

“Chamamos-lhe Malha, património de pessoas e não é por acaso. É aquilo que queremos sobrevalorizar, trazer para a primeira linha do nosso debate, reflexão, atividades, iniciativas. (...) Estamos a viver momentos em que há tensões naturais de uma cidade que está a desenvolver-se, com uma dinâmica económica muito forte, com dinâmica turística também muito intensa, particularmente no Centro Histórico, e nós temos de saber compatibilizar, encontrar o ponto de equilíbrio”, acrescentou.

O programa, apresentado no terraço de uma casa particular com vista para a Ponte Luís I, nas ‘costas’ da Sé, terá um orçamento de um milhão de euros e decorre entre 5 de julho deste ano a 5 de junho do próximo, espalhando-se por todas as salas e outros espaços municipais no Centro Histórico, mas também no espaço público e outros locais.

O vereador da Cultura e Património, Jorge Sobrado, destacou este programa como uma “promessa de voltar a pensar, olhar, viver o Porto como património de pessoas”, celebrando a sua “monumentalidade invisível, intangível e humana como objeto e destinatário”.

Sobrado apresentou o Malha como tendo 10 portuenses como comissários, colocados em dupla para orientar cinco eixos: “Pensar a Cidade”, por Andreia Garcia e Álvaro Domingues, “Contar a Cidade”, por Minês Castanheira e Joel Cleto, “Dançar a Cidade”, com Luísa Saraiva e Paulo Vinhas, “Riscar a Cidade”, de Rita Roque e José Almeida Pereira, e “Convocar a Cidade”, por Joana Meneses Fernandes e João Ferreira.

Entre os destaques de uma “malha” com três eixos, a programação oficial, a própria atividade dos equipamentos municipais e o que a cidade puder propor, num ano que pode estender-se para lá de junho de 2027 se houver abertura e possibilidade para isso.

Esta efeméride e os 25 anos da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura dão o mote a uma programação já antevista há meses pela autarquia.

Exposições, performances, visitas, conversas de café, oficinas, sessões para escolas, intervenções no espaço público, um documentário sobre os habitantes não-humanos da cidade, leituras e poesia estão entre as dezenas de propostas do Malha, que vai mostrar à cidade a coleção de arte contemporânea que o município foi reunindo nos últimos 30 anos.

Uma das garantias deixadas na apresentação por Jorge Sobrado foi a reabertura da Casa-Museu Guerra Junqueiro durante a vigência deste programa, que “não será de salões, mas do espaço público e da comunidade”, e não necessariamente “para turista ver”, antes para quem habita a cidade.

Questionados pelos jornalistas sobre a desertificação do Centro Histórico pela pressão da gentrificação, para que especialistas têm alertado, os autarcas reconheceram as visões contrastantes sobre o presente do Porto.

“A predisposição é olharmos para este tema com muita atenção. Não tenho a mais pequena hesitação em dizer que o que se verificou nos últimos anos no Centro Histórico foi extraordinariamente positivo. Mas como tudo na vida, nem tudo é 100% negativo e 100% positivo. Há externalidades da revitalização do Centro Histórico, positivas e negativas. A mais importante foi hoje termos menos gente a habitar aqui do que deveríamos ter. Estamos claramente empenhados em encontrar soluções, sabendo que não há soluções mágicas”, admitiu Pedro Duarte.

Já Jorge Sobrado vê a programação como um “convite à diáspora portuense”, em resposta a uma questão sobre se esta contempla também as pessoas que deixaram entretanto a zona classificada devido à pressão imobiliária e turística.

“Quando falamos de portuenses, falamos dos nascidos, dos adotados, e dos que migraram. Há um convite a uma certa diáspora portuense para se reencontrar com esta ideia de cidade. Diria que este programa não é inocente. (...) Coloca-nos as questões difíceis”, acrescentou.

Em 20 de fevereiro, numa conferência no âmbito das celebrações dos 30 anos do Centro Histórico, refletindo sobre o legado, surgiram alertas para o estado do património classificado, entre eles o humano, e o arquiteto João Rapagão alertou para a desertificação das antigas freguesias da Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, onde um terço da população terá saído, entre 2001 e 2011.