Projeto 50 Vozes quer colocar mais especialistas femininas na agenda mediática
A sub-representação das mulheres no espaço mediático continua a ser uma realidade transversal a várias áreas da sociedade portuguesa. Mas, para Rita Ribeiro, uma das coordenadoras do Projeto 50 Vozes, o problema não está apenas na falta de mulheres convidadas para ocupar lugares de comentário, debate ou destaque público. O problema também reside na falta de diversidade devido ao facto de “serem sempre as mesmas” a receber esses convites.
Foi precisamente dessa constatação que nasceu o Projeto 50 Vozes, uma iniciativa que pretende criar uma rede de mulheres especialistas de diferentes áreas e perfis, facilitando o contacto entre essas profissionais e entidades, organizações ou meios de comunicação social.
“Sentimos que as mulheres, além de estarem sub-representadas na agenda mediática, sempre que são convidadas para ocupar esses lugares de destaque tendem a ser sempre as mesmas”, explica Rita Ribeiro. “Isso acaba por corroborar a ideia de que há poucas mulheres capazes de dominar determinadas temáticas, quando isso simplesmente não é verdade.”
A coordenadora defende que existe um número significativo de mulheres altamente qualificadas em áreas diversas, mas que, muitas vezes, não conseguem chegar aos espaços de visibilidade pública. “Elas já existem, têm currículos absolutamente inspiradores. O que nós pretendemos é criar uma plataforma onde esses nomes estejam plasmados e servir de mediadores entre essas mulheres e as entidades que procuram especialistas.”
O projeto ganhou, este ano, um novo impulso com o lançamento de um site próprio, pensado como um repositório de contactos e perfis profissionais. A ideia passa não apenas por disponibilizar os nomes online, mas também por estabelecer pontes concretas com instituições e organizações. “Sempre que nos chega algum pedido de uma entidade para um evento ou ocasião, procuramos colocar diretamente em contacto as mulheres da nossa lista com essas oportunidades”, refere.
“Metade da população acaba por não ser ouvida”
Para Rita Ribeiro, a falta de mulheres em lugares de debate e decisão tem consequências práticas e profundas. “O facto de estarmos sub-representadas faz com que muitas das decisões sejam tomadas sem mulheres e, por isso, metade da população acaba por não ser ouvida.”
A coordenadora acredita que a exclusão feminina dos espaços mediáticos resulta sobretudo de um problema estrutural e cultural. “A sociedade continua muito organizada em torno do homem”, afirma. “Os convites chegam muito menos às mulheres do que chegam aos homens, e isso está profundamente enraizado.”
Mas há também barreiras internas, alimentadas por anos de desigualdade e por aquilo que descreve como uma “síndrome do impostor” coletiva. “Nós próprias temos muita dificuldade em colocar-nos nesses lugares de destaque”, admite. “Questionamos se aquele lugar nos pertence, se temos alguma coisa relevante para acrescentar.”
Segundo Rita Ribeiro, muitas mulheres acabam por desvalorizar o próprio percurso profissional e académico. “Achamos sempre que o nosso discurso não é suficientemente brilhante ou que aquele espaço não é para nós. E isso leva muitas mulheres a nem sequer ponderarem ocupar estes lugares.”
Ainda assim, acredita que projetos como o 50 Vozes podem contribuir para mudar essa perceção. “Queremos que esta lista sirva também de inspiração para mulheres que ainda não se consideram suficientemente válidas. Queremos que olhem para estes percursos e reconheçam valor no seu próprio caminho.”
Número de candidaturas continua baixo, mas já supera expectativas
Apesar do crescimento do projeto, a coordenação admite que o número de candidaturas recebidas em 2025 ficou abaixo das expectativas. “Não chegaram tantas candidaturas quanto esperávamos”, reconhece Rita Ribeiro, embora sublinhe que também existiram algumas candidaturas desajustadas ao propósito da iniciativa.
No entanto, e ao contrário do ano anterior, a edição de 2026 superou as expectativas. “Estávamos a contar com 200 candidaturas e recebemos 600”, relata a coordenadora. Ainda assim, e apesar do aumento exponencial de candidaturas face à edição anterior, Rita Ribeiro fala de um número simbólico tendo em conta a dimensão nacional do projeto.
Para esta nova edição, a coordenação decidiu reformular os critérios de seleção e criar comités especializados que vão acompanhar o processo de curadoria das próximas mulheres escolhidas. Os critérios ainda não foram divulgados publicamente.
“Queremos tornar o processo mais justo, democrático e verdadeiramente representativo da sociedade portuguesa”, explica. “Nem todas as mulheres têm percursos altamente académicos ou grandes títulos. E isso não significa que não tenham histórias relevantes ou percursos inspiradores.”
A intenção, acrescenta, é construir uma lista diversa em termos sociais, profissionais, etários e geográficos. “Todo o tipo de mulheres, todo o tipo de backgrounds, todo o tipo de interesses. É isso que queremos representar.”
Entre as áreas onde o projeto encontrou mais dificuldades para atrair candidaturas femininas estão a defesa, a cultura, o desporto e a gastronomia.
“Na defesa ainda há muita falta de representação por parte das mulheres”, afirma Rita Ribeiro. “Mas diria que a cultura é, talvez, a área onde sentimos mais dificuldade em aproximar mulheres.”
Da lista à prática
Nos últimos meses, o projeto 50 Vozes começou também a apostar em parcerias com organizações e iniciativas externas, numa tentativa de transformar a lista num mecanismo ativo de criação de oportunidades.
Recentemente, duas mulheres ligadas ao projeto participaram como mentoras na Academia da Próxima Geração, uma colaboração que Rita Ribeiro vê como um primeiro passo para concretizar os objetivos da iniciativa.
“O que nós procuramos é materializar realmente a lista”, afirma. “Ter apenas uma lista sem criar oportunidades acaba por esvaziar o propósito do projeto.”
A coordenadora adianta, ainda, que estão a ser preparadas novas parcerias e eventos, embora sem revelar detalhes para já. “Estamos a trabalhar com entidades que já ocupam espaço mediático e desenvolvem trabalhos muito interessantes na área social. Em breve haverá mais iniciativas.”
No final, resume o objetivo do projeto de forma simples: “As mulheres existem. O talento existe. O que falta é criar a ponte certa para que possam finalmente ocupar o espaço que também lhes pertence.”