PTRR? "É um conjunto de ideias que parecem bem mas temos de perceber como vai funcionar no terreno"
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, apresentou esta semana o PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, que surge como o pacote de medidas do Governo lançado em resposta aos impactos estruturais e económicos provocados pelo comboio de tempestades de fevereiro.
São 22,6 mil milhões de euros distribuídos por financiamento público e privado projetados para uma janela de nove anos, e com respostas que vão desde a habitação à reconstrução das indústrias ou das explorações agrícolas que foram danificadas neste período. Em declarações na Assembleia da República, Luís Montenegro admitiu que o programa ainda pode ser revisto numa altura em que são conhecidas as primeiras reações das pessoas no terreno.
Em conversa ontem com jornalista Estela Machado, na rubrica Objetiva do programa Juca, o presidente da ACO - Associação de Agricultores do Sul, Rui Garrido apareceu a partir da Ovibeja para deixar palavras positivas sobre as medidas, no geral, mas com uma ressalva importante: "É um conjunto de ideias que parecem bem mas temos de perceber como vai funcionar no terreno".
Questões previstas no documento como o "armazenamento da água", o "uso mais eficiente de água e regadios" e as "ajudas para a floresta" foram destacadas pelo responsável, com a certeza que o importante é que "haja comprometimentos" sérios que permitam às medidas ter impacto real junto de quem mais preciso.
Situação periclitante
"Ainda não existe pormenorização das medidas tema a tema", aponta, sendo que no que toca à "agricultura biológica" ou ao "uso eficiente da água", por exemplo, o documento é pouco claro quanto ao alcance das medidas.
Tudo somado, é importante agir o quanto antes, sobretudo quando o setor enfrenta uma situação periclitante. "Na nossa região [Alentejo], tivemos no outono passado um surto enorme de língua azul, nos ruminantes, com seriíssimos prejuízos. Depois houve intemperie e agora guerra. O conjunto de prejuízos é grande".
Por outro lado, "o preço do gasóleo agrícola subou mais de 60 cêntimos", face ao ano passado, o que configura um "aumento brutal", com a subida a chegar também aos adubos. Rui Garrido confessou inclusivamente que "já teve oportunidade de dizer ao ministro da agricultura" sobre a necessidade de olhar para as medidas de apoio a ser implementadas em Espanha", quando "no mínimo podíamos ter condições semelhantes". Caso tal não aconteça, podemos sofrer "concorrência desleal, nos produtos e nos mercados".
Hoje há Conselho de Ministros na Ovibeja e a expectativa é que a atenção ao setor agrícola não seja momentânea. "Há que dar volta a isto, temos esperança", acredita o responsável, com a certeza que os "Estados mais ricos vão apoiar mais, e os menos vão apoiar menos".