Quando Bruno fizer as malas, leva consigo um bairro centenário do Porto

Bruno Teixeira é hoje o único morador no Bairro dos Moinhos, na escarpa das Fontainhas, no Porto. Depois de várias famílias terem sido realojadas pela autarquia, também se antecipa a saída daquele morador. Quando fizer as malas, o portuense arruma também as memórias de um bairro que deverá desaparecer, segundo os planos municipais.
João Lacerda
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
15 fev. 2026, 08:00

Nos dias que correm, para chegar ao Bairro dos Moinhos, nas Fontainhas, a sensação não é muito diferente do que andar de olhos vendados. Ainda que ao longe saltem à vista as luzes e recortes da Ponte Luís I e da Serra do Pilar, os passos são dados num ambiente praticamente às escuras. Ali, a única claridade vem da casa de Bruno Teixeira que além de marcar presença, mantém ainda acesa a história de um dos locais mais emblemáticos do Porto, prestes a desaparecer. 

“Foi aqui que nasci. Vim da maternidade diretamente para cá”. As palavras saem da boca de Bruno Teixeira enquanto fala com o Conta Lá, encostado à porta da sua casa. Ele é hoje o único morador daquele aglomerado no centro histórico do Porto. E mesmo com a falta de iluminação, não passam despercebidos os muros partidos ou as portas e janelas cimentadas.

Três anos depois da enxurrada que deixou o Porto em pranto, com água descer a Rua Mouzinho da Silveira e a invadir casas nas Fontainhas e no Bairro dos Moinhos, a autarquia avançou com planos diferentes para o bairro, após a sua aquisição.Desde então, os moradores que ali viviam foram realojados em outros sítios, incluindo os pais de Bruno. O filho optou por não sair e é o único morador que se mantém ali.

O contrato da habitação, feito em 1984, é um daqueles que “já não se faz nos dias de hoje”: “Tem cláusula vitalícia, por exemplo”, explicou Bruno. “Na altura, o senhorio disse-me para fazer as melhorias que quisesse. Porta, cozinha, ar-condicionado, foi tudo pago por nós”, acrescentou.

Foto: Grande enxurrada em 2023 afetou fortemente o bairro. Nos anos que se seguiram, várias famílias foram realojadas pela autarquia, que adquiriu a ilha por 900 mil euros e alegou a insegurança de residência (Estela Silva/ Lusa)

 

Processo avança por vias legais

Mas a venda do bairro pelos herdeiros à Câmara introduziu incerteza e envolve burocracia. Bruno diz que não foi notificado sobre a venda nem recebeu a opção de compra, prevista por lei para inquilinos de longa duração. 

Desde então, negociações com a Câmara e representantes legais têm sido lentas e sem respostas claras, confessou: “O contrato que continua legal em vigor é o de 84. É vitalício, sem prazo de término. Mas já me pediram para sair. Eu até posso sair, mas não aceito qualquer solução”.

A renda sempre foi baixa, ainda nos moldes antigos, e não ultrapassa muito mais que os cem euros, mas o investimento foi alto. Mais do que dinheiro, pesa o tempo e a pertença: “Nunca saí daqui. Nunca fui viver com mulher nenhuma. Sempre foi aqui a minha morada.”

As propostas de realojamento que recebeu não correspondem ao mínimo que considera aceitável, um T2 com condições dignas. “Acabar com uma ilha destas que tinha aqui mesmo pessoal do Porto é acabar com tudo”, lamentou, referindo-se à transformação da cidade, cada vez mais voltada para o turismo e menos para os portuenses que mantêm a identidade da cidade.

Desde que está ali a viver sozinho, chegaram desafios inesperados. Bruno teve de instalar alarmes, reforçar as portas, após ter enfrentado assaltos e incidentes provocados por pessoas que passavam pelo bairro. A situação foi, inclusive, reconhecida pelo antigo presidente da autarquia, Rui Moreira.

Foto: Vista aérea do estado atual do bairro na escarpa das Fontainhas (João Lacerda/ Conta Lá)

A Câmara do Porto adquiriu as 32 edificações, algumas das quais em ruínas, por 900 mil euros, no início de 2024, sendo que este valor foi proposto pelos proprietários. 

A autarquia justificou a aquisição da ilha pela necessidade de "proceder à adaptação e aumento da resiliência da ribeira do Poço das Patas, através de medidas de estabilização da infraestrutura e de dissipação de energia". Além da reconfiguração da ribeira do Poço das Patas, a aquisição é justificada pela intenção de "adquirir área necessária para a implementação do futuro Parque das Fontainhas/Carquejeiras".

 

Sozinho no bairro vazio

Hoje, Bruno vive rodeado das casas vazias. Onde antes havia crianças, sardinhas no São João e portas abertas, agora o silêncio é gritante e as portas deram lugar a paredes de cimento. “Um dia cheguei aqui e estava tudo sem portas. Depois taparam tudo”, conta Bruno, acrescentando que “foi criado um ambiente” para que saísse. 

Ainda com estas mudanças, há algo no discurso de Bruno que se sente de início ao fim: a saudade e nostalgia que já se sentem. “Eu brinquei aqui. Conheço isto de olhos fechados. Se apagar a luz, eu ando aqui na mesma. Sei todos os cantinhos”, brincou o morador.

Foto: Direitos Reservados

 

O peso de levar um bairro às costas

Bruno sabe que carrega mais do que a sua própria história. “Quando eu sair, levo o bairro comigo. Sem dúvida.” E diz isso sem dramatismo, apenas com a consciência tranquila de quem ficou até ao fim. “Tudo o que está aqui é meu e do meu pai. Vou levar tudo. Só ficam as paredes. E mesmo essas, se pudesse, também levava.”

Questionado sobre se teria ficado caso o bairro fosse reabilitado, a resposta surge sem hesitação: “Sem dúvida. Pelo local, pelas pessoas, o ambiente bairrista. Isto era o verdadeiro Porto.”

“Hoje o Porto é turismo. Antes, via-se o verdadeiro portuense. Acabar com uma ilha destas é acabar com tudo”, rematou.

O processo com a Câmara continua sem acordo. O Conta Lá contactou a Câmara do Porto, mas não obteve resposta até ao momento. Mas segundo a Junta de Freguesia do Bonfim, o caso de Bruno Teixeira está sinalizado e a ser acompanhado, respeitando os trâmites legais.

Mas mais do que a disputa jurídica, o que pesa é o emocional. “A casa resolve-se. Agora, a parte sentimental custa”, sublinhou Bruno. Quando chegar o dia que tenha de deixar o Bairro dos Moinhos, a mudança não é apenas de Bruno: “vai apagar-se mais um pedaço do Porto”.


Foto: Moradores do bairro em limpezas após enxurrada em 2023 (Estela Silva/Lusa)