Quem come "pela primeira vez o bolo-rei nunca mais esquece". Petúlia, mais de meio século de tradição à mesa dos portuenses

Fundada em 1972 por um casal empreendedor, a Confeitaria Petúlia tornou-se um símbolo da cidade do Porto, preservando há mais de meio século a tradição familiar, a qualidade artesanal e o icónico bolo-rei que continua a conquistar gerações de clientes.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
06 jun. 2026, 08:00

Na Confeitaria Petúlia, na Avenida Júlio Dinis, no Porto, o aroma do bolo-rei acabado de sair do forno continua a fazer parte do quotidiano, tal como acontece desde 1972, ano em que o espaço abriu portas pelas mãos de um casal empreendedor que decidiu criar, num edifício ainda em construção, uma das pastelarias mais emblemáticas da cidade.

A história começou quando o fundador, depois de 15 anos a trabalhar na Confeitaria Peninsular, na Rotunda da Boavista, decidiu arriscar num projeto próprio. Ao seu lado esteve sempre a mulher, Maria Amélia Pinto, hoje com 92 anos e ainda presença habitual na casa que ajudou a criar.

"Esta casa estava aqui só com as paredes ao alto, não tinha mais nada. O meu marido pensou em abrir aqui uma confeitaria, falou com um arquiteto, falou com a senhoria e fizemos tudo de raiz", recorda a cofundadora.

Mais de cinco décadas depois, a Petúlia continua nas mãos da família. A gestão passou para os filhos, Eurico Pinto e o irmão, mas a terceira geração já começou a pôr a mão na massa.

"Passou dos meus pais para mim e para o meu irmão. Agora temos aqui os nossos filhos a dar uma ajuda. Quem sabe serão eles a continuação desta casa", afirma Eurico Pinto.

Quando a confeitaria abriu, o cenário à sua volta era muito diferente. Onde hoje existem edifícios, escritórios e intenso movimento urbano, havia terrenos vazios onde os irmãos Pinto jogavam à bola.

"Quem vê hoje a Júlio Dinis e a Rotunda da Boavista não imagina como era em 1972. Era completamente diferente. Aqui em frente não havia praticamente nada", recorda Eurico.

A própria Maria Amélia olha para a transformação da zona com alguma nostalgia. "A Boavista não é nada do que era 50 anos atrás. Tinha muito comércio, muitos bancos, era uma rua muito movimentada."

Apesar das mudanças na cidade, a Petúlia conseguiu preservar a sua identidade. A decoração, alguns objetos históricos e até a forma de vestir dos colaboradores procuram manter vivo um ambiente que remete para o Porto de outros tempos.

Mas se há algo que verdadeiramente distingue a casa é o bolo-rei.

"O nosso produto número um é o bolo-rei", afirma sem hesitações Eurico Pinto. "Uma pessoa que coma pela primeira vez o bolo-rei da Petúlia nunca mais esquece o paladar."

A fama do produto é tal que a confeitaria o produz todos os dias do ano. Apenas não há fabrico nos dias em que a casa encerra: 25 de dezembro e 1 de janeiro. "É o produto de que mais me orgulho” – atesta Maria Amélia. 

O segredo, garante a família, está na qualidade das matérias-primas e no saber acumulado ao longo de décadas pelos pasteleiros da casa.

Além do bolo-rei, os croissants, os pastéis de nata e os salgados figuram entre os produtos mais procurados, tanto por clientes habituais como pelos turistas que hoje descobrem a cidade.

"Os estrangeiros ficam admirados com a quantidade de produtos que temos e com a qualidade. Provam uma coisa, depois outra, e gostam de tudo", conta Eurico.

Ao longo dos anos, a Petúlia tornou-se também um ponto de encontro de figuras marcantes da cidade. A ligação do fundador ao Futebol Clube do Porto ajudou a transformar a confeitaria num local frequentado por nomes históricos do clube, como José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa.

Mas mais do que as figuras conhecidas, o que distingue a Petúlia é a relação construída com os clientes anónimos que regressam geração após geração.

"Já temos aqui clientes de três e quatro gerações", conta o sócio-gerente. "Vêm os avós, depois os filhos, os netos e até os bisnetos."

Essa fidelidade é, talvez, o maior símbolo do sucesso da confeitaria. Um sucesso que Maria Amélia resume de forma simples, sem receitas mágicas nem grandes teorias.

"Começou-se a trabalhar bem, a fazer as coisas direitas. Tivemos bons pasteleiros. E foi indo para a frente." E, mais de cinco décadas depois, continua a ir.