Rede digital une Santuário de Panóias a mais 19 sítios históricos transmontanos
O Santuário Rupestre de Panóias, castros, necrópoles, pontes romanas e capelas do distrito de Vila Real vão ficar unidos numa rede digital, no âmbito de um projeto que quer valorizar e dinamizar 20 sítios de interesse histórico.
Em Panóias, no lugar do Assento, na União de Freguesias de Constantim e Vale Nogueiras, no concelho de Vila Real, decorrem trabalhos com recurso a drones e ‘scanners’, um 3D e outro que combina laser e infravermelhos.
“O que procuramos é integrar o património cultural com as humanidades digitais”, afirmou à agência Lusa o arqueólogo Gerardo Vidal Gonçalves, da Associação de História e Arqueologia de Sabrosa, promotora do projeto.
O "Pannonias Digital Old Lands: history, cultural heritage and rural landscapes", numa tradução livre - Pannonias Digital Terras Antigas: história, património cultural e paisagens rurais, conta com a parceria dos municípios de Sabrosa, Alijó e Murça, que, no passado, estiveram ligados na antiga "Terra de Panóias".
No terreno fazem-se por estes dias levantamentos digital LIDAR e fotogramétrico (através dos drones) das cavidades e inscrições, com o objetivo de criar um modelo digital pormenorizado deste emblemático arqueossítio, mas o trabalho vai estender-se a outros locais que se espalham pelos municípios que integram o consórcio.
Por exemplo, nas antigas inscrições gravadas na rocha em Panóias, pouco percetíveis a um primeiro olhar, os investigadores recorrem ao ‘scanner’ de infravermelhos. “Numa perspetiva mais de utilizar esses modelos para criar animações, para as pessoas poderem percecionar o que é que são as inscrições, o que é que dizem”, explicou o arqueólogo.
Frisou que se pretende “digitalizar para preservar e valorizar”, realçando que o projeto tem uma vertente turística, educativa e quer envolver as comunidades que vivem nos sítios.
Jorge Sampaio, coordenador do Santuário de Panóias, do Património Cultural, I.P., disse que este projeto é importante porque “vem reforçar o conhecimento que Panóias precisa” e dar aos visitantes uma “informação acrescida e de mais fácil leitura sobre o sítio”.
Panóias guarda um santuário rupestre de culto da época romana, onde se conservam três grandes fragas talhadas com escadas de acesso e diversas cavidades, para fins rituais, e um importante conjunto de inscrições com instruções litúrgicas, dedicadas a divindades como Serápis e Ísis.
Ali sacrificavam-se animais e, pelas inscrições no local, terá sido mandado construir na transição do século II para o século III pelo senador romano Caius Calpurnius Rufinus.
“Também é importante destacar que temos uma, das quatro inscrições conservadas, escrita em grego. Metade em grego e metade em latim. Portanto, este conjunto de informações torna o sítio único a nível do antigo Império Romano”, afirmou Jorge Sampaio, que destacou ainda que a monumentalidade e a conservação do espaço “também o tornam especial”.
Para além deste sítio, o projeto envolve, entre outros, a necrópole medieval das Touças, a capela de Roalde, os castros de Palheiros e do Pópulo e pontes romanas em Alijó e em Murça.
No âmbito da iniciativa, o Polo Arqueológico de Garganta, em Sabrosa, vai sofrer obras de adaptação e ali vai ser criada uma sala imersiva que terá um guia virtual – um druida – que vai mostrar e dar conhecer o património com uma linguagem mais acessível.
O druida ‘nasceu’ de um projeto anterior que está relacionado com a celebração do solstício de verão na necrópole medieval das Touças.
Vai ainda ser criada uma aplicação através da qual se poderá, por exemplo, fazer uma visita virtual aos sítios e obter informações sobre a sua história. Há informação que vai ser partilhada com os municípios parceiros através de óculos de realidade virtual e o projeto recorre também a hologramas e animações, como, por exemplo, soldados romanos a construírem a ponte em Murça.
Serão ainda incluídas atividades turísticas e educativas, percursos culturais, visitas e ‘workshops’.
Mas, segundo Gerardo Vidal Gonçalves, pretende-se também criar réplicas (à escala) de peças históricas, o que permitirá que pessoas com incapacidade física e visual tenham acesso ao património, podendo-as manipular.
A também arqueóloga Dina Pereira, da Associação de História e Arqueologia de Sabrosa, realçou que o projeto vai contribuir para a divulgação da história e do património e para que as comunidades, mas sobretudo os mais novos, valorizem as suas raízes.
O recurso às novas tecnologias, defendeu, pode também ajudar a compreender melhor a história.
O projeto "Pannonias”, que deverá estar concluído em meados de 2027, é apoiado em 75% pelo Turismo de Portugal, no âmbito da "Linha + Interior Turismo", e tem um orçamento de cerca de 380 mil euros.