Saramago pode deixar de ser leitura obrigatória? Problema principal é que 35% dos alunos não lê de todo

A possível saída de José Saramago das leituras obrigatórias no 12.º ano está a gerar polémica, mas a Associação de Professores de Português garante que o autor não está a ser retirado. Em causa está uma proposta que pretende aumentar os hábitos de leitura dos alunos e resolver o que consideram problemas estruturais no ensino do português. Especialistas falam em interpretações erradas e apontam para um problema maior: muitos estudantes continuam a não ler.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
31 mar. 2026, 12:14

A possibilidade de José Saramago deixar de ser leitura obrigatória no 12.º ano está a gerar polémica, mas a Associação de Professores de Português (APP) garante que o debate parte de um equívoco: o autor não está a ser retirado do currículo, mas integrado numa lógica de alternativa que pretende, sobretudo, pôr os alunos a ler mais.

Em entrevista ao Conta Lá, o professor e presidente da APP, João Pedro Aido, rejeita a ideia de que esteja em causa a exclusão do único Nobel da Literatura portuguesa e aponta antes para um problema mais profundo do sistema educativo: “Os alunos lerem pouco é talvez o principal problema do nosso sistema educativo”, sublinhando que cerca de 35% dos alunos “não leem ao longo de toda a escolaridade”.

Mais do que Saramago: o problema estrutural da leitura

A revisão das Aprendizagens Essenciais do Português surge num contexto mais amplo do que a atual polémica. Segundo João Pedro Aido, trata-se de uma resposta a fragilidades acumuladas no sistema educativo, agravadas nos últimos anos, particularmente após a pandemia.

Entre essas fragilidades está a dificuldade dos alunos em lidar com competências de leitura mais exigentes. “Os alunos depois têm mais dificuldade em conseguir resolver tarefas […] que implicam fazer inferências, comparar, relacionar, tirar conclusões”, explica, apontando para práticas pedagógicas que privilegiaram competências mais básicas.

Os resultados refletem esse problema. “A média dos exames do 12.º ano a Português anda à volta dos 11 […] não sai ali do intervalo entre o 11 e o 12 em 20”, refere. Para a APP, estes números estão diretamente ligados à falta de hábitos de leitura consistentes – um problema que considera estrutural e que ajuda a explicar a necessidade de rever o currículo.

Nem erro nem evolução: um “compromisso” no currículo

No centro da polémica está a eventual saída de Saramago das leituras obrigatórias. No entanto, a APP rejeita esse enquadramento simplista. Para João Pedro Aido, a mudança “não é propriamente nem uma coisa nem outra”, afastando a ideia de que se trate de um erro ou de uma evolução linear do currículo.

A proposta passa por criar uma alternativa entre um romance de Saramago e um de Mário de Carvalho, num modelo que o próprio descreve como um “compromisso”. “Nós não o estamos a retirar, estamos a pô-lo em alternativa”, explica, sublinhando que o objetivo é tornar o programa exequível sem excluir autores relevantes.

Na prática, defende, os alunos acabam por contactar com ambos. “Estamos a arranjar aqui uma solução mais subtil para levar os alunos a lerem os dois autores e não retirar nenhum”. Ainda assim, a necessidade de escolhas revela também os limites do tempo letivo, num currículo que procura conciliar ambição com viabilidade.

Polémica nasce de uma “leitura superficial” – ou de falta de clareza?

Para o presidente da APP, a controvérsia em torno de Saramago resulta, em grande parte, de uma interpretação incorreta das propostas em consulta pública. “Criou aqui uma leitura […] não muito correta”, afirma, defendendo que a ideia de que o autor está a ser eliminado não corresponde ao que está previsto. Mais do que isso, sugere que parte do debate público assenta em leituras indiretas: há quem “não leia o texto e acabe por repetir aquilo que as pessoas dizem”.

Ainda assim, a própria associação admite que o documento pode não estar suficientemente explícito. “Talvez tenhamos que […] deixar mais explícito o que é que fica em alternativa”, reconhece. A ambiguidade poderá, assim, ter contribuído para a forma como a proposta foi interpretada fora do meio educativo.

Mais do que a escolha de autores, a proposta da APP centra-se na necessidade de aumentar significativamente os hábitos de leitura dos alunos, tanto em quantidade como em qualidade. Entre as medidas defendidas está a criação de um projeto pessoal de leitura, que incentive a leitura autónoma e regular. A associação propõe que os alunos leiam “pelo menos 30 minutos por dia” no ensino básico e “60 minutos por dia” no secundário, com base em estudos internacionais.

O objetivo é também alterar a forma como os alunos se relacionam com os textos. “Os alunos tendem a reproduzir uma leitura apresentada por uma autoridade […] e não se apropriam da obra”, alerta. A aposta passa por promover interpretações próprias, leitura crítica e uma relação mais ativa com a literatura.

Autonomia das escolas e um currículo mais flexível

A proposta introduz também maior flexibilidade na forma como os conteúdos são trabalhados, reforçando a autonomia das escolas, dos professores e até das turmas na escolha das obras.

Apesar de reconhecer que o sistema educativo português continua altamente centralizado, João Pedro Aido defende que mais autonomia pode permitir respostas mais ajustadas às realidades concretas. Diferentes turmas poderão, por exemplo, trabalhar obras distintas dentro do mesmo enquadramento curricular.

Essa abordagem não elimina divergências sobre o modelo, mas aponta para uma mudança de lógica: em vez de um percurso único e rígido, um currículo que admite variações, mantendo referências comuns.

Mais do que escolher autores, o desafio é formar leitores

Para além das alterações nas leituras obrigatórias, a revisão das Aprendizagens Essenciais inclui mudanças mais amplas no currículo. Entre elas, o reforço do teatro e a introdução de autores contemporâneos, como Tiago Rodrigues.

A APP considera que esta aposta pode aproximar os alunos da literatura e potenciar formas mais dinâmicas de aprendizagem, envolvendo não apenas a leitura, mas também a interpretação e a criação. Ainda assim, a centralidade do debate em torno de Saramago tem deixado na sombra outras alterações estruturais, que poderão ter impacto mais profundo na forma como a literatura é ensinada nas escolas.

As propostas estão agora em consulta pública e poderão ainda sofrer alterações, consoante os contributos recolhidos junto de professores e outros intervenientes. Para a APP, o essencial não está em decidir que autor deve ou não permanecer como leitura obrigatória, mas em garantir que os alunos leem – e leem mais.

Num sistema em que uma parte significativa dos alunos atravessa toda a escolaridade sem hábitos de leitura, a polémica em torno de Saramago acaba por revelar algo maior do que a escolha de um autor: expõe um problema estrutural que o currículo, por si só, pode tentar resolver, mas dificilmente conseguirá ignorar.