"Sinto que, ao ter começado a fumar tão cedo, limitei as minhas capacidades": o impacto do consumo de canábis no Alentejo
“Já perdi um amigo para a overdose. Se não tivesse tido o acompanhamento que tive, se calhar também já cá não estava”. O testemunho é de Ana (nome fictício), atualmente com 30 anos, natural de Évora, que começou a consumir canábis e álcool ainda na adolescência. Em entrevista ao Conta Lá, descreve um percurso marcado pelo consumo, num contexto em que sair de casa era, muitas vezes, uma forma de escapar ao ambiente familiar em que cresceu.
O consumo de substâncias entre jovens em Portugal está a diminuir, mas os dados revelam uma mudança de padrão entre quem continua a consumir. O retrato surge no Estudo sobre Comportamentos Aditivos e Dependências – CAD 2024 (ECATD-CAD), do ICAD, que analisou mais de 11 mil alunos entre os 13 e os 18 anos.
“Há menos alunos a consumir. No entanto, daqueles que consomem, fazem-no de forma mais intensiva”, explica Elsa Lavado, investigadora do ICAD. A canábis mantém-se como a droga ilícita mais consumida entre jovens. Cerca de 7% dos alunos já experimentaram, com valores mais baixos no último ano e no último mês, mas com uma presença consistente ao longo das várias edições do estudo. A leitura destes dados vai além dos números. Como sublinha Elsa Lavado, o objetivo destes estudos não é apenas medir variações, mas apoiar decisões no terreno. “Mais importante do que dizer se subiu ou desceu é perceber as tendências”, esclarece.
E aqui as diferenças regionais colocam um nome acima dos outros: Alentejo. De acordo com o estudo, a região destaca-se pelo maior consumo, seja qual for a temporalidade e a substância ou prática considerada. Relativamente à canábis, o Alentejo - com 8,5% de consumo entre os alunos - só surge atrás do Algarve (8,8%), vencendo todas as outas regiões quer no álcool quer no tabaco. Para se ter uma ideia, cerca de quatro em cada dez alunos do Alentejo ingeriram uma bebida alcoólica no mês anterior ao inquérito, enquanto na Madeira a proporção é cerca de metade desse consumo, por exemplo.
Porque se consome e porque é diferente no Alentejo
É neste contexto que surge a explicação mais profunda para estas diferenças. Para Paulo Jesus, psicólogo e coordenador técnico do Centro de Respostas Integradas do Alentejo Central, o consumo entre jovens não pode ser entendido de forma isolada, nem reduzido a escolhas individuais. “Os comportamentos de risco associados aos consumos resultam sempre de uma combinação de fatores individuais, sociais, culturais e territoriais, que se articulam entre si”, explica.
No caso do Alentejo, essas dimensões tendem a reforçar-se mutuamente. A baixa densidade populacional, o isolamento e a menor oferta de atividades para jovens aumentam o peso do grupo e da pertença social, tornando o consumo também um mecanismo de inclusão. “Muitos jovens recorrem aos consumos como mecanismos de integração entre pares, sobretudo em contextos comunitários de baixa densidade demográfica”, refere.
A esta dimensão social junta-se uma cultura permissiva em relação ao álcool e ao tabaco, que atravessa gerações e reduz o discernimento dos perigos. Quando os jovens crescem com mensagens ambivalentes ou permissivas sobre as substâncias, o consumo tende a iniciar-se mais cedo e a manter-se com maior facilidade. Mas há uma dimensão ainda mais decisiva: a emocional. “Em situações de ansiedade, depressão ou stress, o consumo pode assumir um papel de regulação emocional”, explica Paulo Jesus.
É neste ponto que a explicação dos especialistas se cruza com a história de Ana. O que começa como curiosidade ou integração social pode transformar-se numa resposta a contextos mais profundos, onde o consumo deixa de ser ocasional e passa a ter um papel no equilíbrio emocional.
Entre a fuga e as consequências
A história de Ana ajuda a dar corpo a estes dados. O consumo não surgiu apenas por curiosidade – foi também uma forma de lidar com o ambiente em que cresceu, marcado por instabilidade e violência. “Cresci num ambiente muito complicado, com um pai alcoólico e violência doméstica. […] Assisti a muita coisa violenta e ouvi coisas que uma criança nunca deveria ouvir”, recorda.
Na adolescência, sair de casa tornou-se uma necessidade. Foi nesse espaço que o consumo se intensificou, entre canábis, álcool e outras substâncias, como ópio ou LSD. Aos 16 anos, teve uma overdose e acabou por ser hospitalizada. Decorrente dessa situação, iniciou acompanhamento psicológico na Coordenação Nacional para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (CAD) – um ponto de viragem no seu percurso.
Além disso, recorda que nem sempre o consumo a ajudava a lidar com a ansiedade. “Havia momentos em que, se estivesse um bocadinho ansiosa, fumava e conseguia acalmar-me. Mas também havia alturas em que fumava e, na verdade, ficava mais ansiosa. Cheguei a ter arritmias provocadas pelo consumo”, descreve.
A partir daí, a relação com o consumo tornou-se mais consciente, mas também mais complexa. “Já não sinto um vício a nível físico. É a parte psicológica que custa mais”, explica, referindo que o consumo começou a abrandar por volta dos 21 anos. “O acompanhamento psicológico ajudou-me a compreender os meus limites e os sinais do meu corpo”, acrescenta.
Atualmente, reconhece o impacto do início precoce. “Eu sinto que, ao ter começado a fumar tão cedo, limitei as minhas capacidades. Eu era uma adolescente em desenvolvimento”, afirma.
O peso maior está nas relações. “A minha mãe diz que eu lhe dei o maior desgosto da vida dela”, conta. “Foi uma experiência e, apesar das coisas negativas terem acontecido, aprendi com elas. O que me custa mesmo é a desilusão que lhe dei, porque na altura não tinha noção das coisas.”
Um percurso que começa antes da canábis
O consumo de canábis raramente surge isolado. Antes dela, há quase sempre um primeiro contacto com substâncias lícitas, sobretudo o álcool, que continua a ser a substância mais consumida entre jovens. Mais de metade dos alunos já bebeu alguma vez e cerca de 30% fê-lo pela primeira vez aos 13 anos ou menos, criando um contexto de normalização precoce.
“O álcool continua a ser a substância mais consumida e socialmente mais aceite”, sublinha Vasco Calado, investigador do ICAD. Este início precoce está frequentemente associado a contextos onde o consumo é socialmente aceite, o que reduz a perceção de risco e facilita a experimentação de outras substâncias ao longo do tempo. No caso da canábis, a acessibilidade também desempenha um papel relevante, sendo frequentemente percecionada como uma substância fácil de obter entre jovens.
No caso de Ana, esse percurso confirma-se. O álcool fez parte do início, muitas vezes em paralelo com a canábis, num ambiente onde o acesso era fácil e o consumo pouco questionado. “Eu estava no secundário e ia bêbada para as aulas”, conta. A experimentação começou aos 15 anos por curiosidade e influência do grupo. “Tinha vários amigos que fumavam e houve um dia em que pensei: ‘se experimento uma cerveja, por que não haverei de experimentar um charro?’”
Uma descida que esconde novos padrões
Apesar da descida global, o estudo aponta para uma mudança de padrão. O fenómeno não desapareceu: tornou-se mais concentrado. Entre os que consomem, há sinais de maior intensidade e risco, o que levanta novas questões sobre prevenção e intervenção precoce.
Esta concentração do consumo numa minoria pode dificultar a deteção precoce e exigir respostas mais direcionadas, sobretudo ao nível da intervenção individual. Ao mesmo tempo, os comportamentos aditivos não se limitam às substâncias: o jogo eletrónico e o jogo a dinheiro registaram um aumento, revelando uma diversificação dos comportamentos de risco entre os mais jovens.
Além disso, estas tendências não são exclusivas de Portugal. “Não estamos perante uma realidade isolada”, sublinha Vasco Calado, explicando que a descida global dos consumos tem sido observada em vários países europeus.
O estudo revela também diferenças entre rapazes e raparigas. De um modo geral, os rapazes apresentam prevalências de consumo mais elevadas, sobretudo no caso da canábis e do álcool, enquanto as raparigas tendem a reportar mais frequentemente sintomas associados ao mal-estar psicológico. Esta diferença reforça a ideia de que os comportamentos de consumo não podem ser analisados isoladamente, mas em articulação com fatores emocionais e sociais distintos.
Além das diferenças de género, existem também diferenças regionais relevantes, uma vez que o consumo não é uniforme no território português. “No caso da canábis, o Algarve regista o maior consumo ao longo da vida e nos últimos 12 meses, e o Alentejo nos últimos 30 dias”, afirma Vasco Calado. A evolução recente mostra uma aproximação entre as duas regiões, com o Alentejo a ganhar expressão no consumo mais recente. Para os investigadores, estas diferenças devem ser interpretadas à luz dos contextos territoriais em que os jovens se inserem, permitindo ajustar respostas e estratégias de intervenção.
A história de Ana não é exceção. Como mostram os dados e explicam os especialistas, o consumo entre jovens resulta de um conjunto de fatores que se cruzam e que, em determinados contextos, tornam mais fácil começar e mais difícil interromper. Num cenário em que há menos jovens a consumir, mas com padrões mais intensos entre quem o faz, o fenómeno continua a exigir leitura cuidada, não apenas dos números, mas dos contextos em que surgem.