Tapada de Mafra reforça gestão florestal para dar resposta às fragilidades estruturais

A Tapada Nacional de Mafra recebeu, a 25 de março, a assinatura de um protocolo com a Tabaqueira para reforçar a gestão florestal, prevenir incêndios e promover a biodiversidade. A iniciativa junta setor público e privado numa resposta a fragilidades estruturais da floresta em Portugal. O Conta Lá esteve no local e falou com os principais responsáveis.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
27 mar. 2026, 08:00

A assinatura do “Protocolo de colaboração técnica e financeira para o desenvolvimento de ações de gestão florestal na Tapada Nacional de Mafra”, entre a Tapada Nacional de Mafra e a Tabaqueira, no passado dia 25 de março, voltou a colocar no centro do debate uma questão estrutural: a dificuldade em garantir uma gestão florestal eficaz e sustentada em Portugal. A cerimónia, que decorreu na própria Tapada, reuniu responsáveis políticos, institucionais e empresariais, e contou com a presença do Conta Lá.

Mais do que um acordo pontual, a iniciativa foi apresentada como uma resposta concreta a desafios antigos - da prevenção de incêndios à preservação da biodiversidade - mas também como um exemplo de uma tendência crescente, o recurso a financiamento privado para suprir limitações estruturais.

Durante a cerimónia, o presidente da Câmara Municipal de Mafra sublinhou que o protocolo “representa mais do que uma parceria institucional ou empresarial”, traduzindo antes “a consciência de que os desafios que enfrentamos na gestão da floresta (…) exigem cooperação, investimento e visão de longo prazo”. A aposta na prevenção foi também destacada como eixo central, com referência ao trabalho de gestão de combustível e ao papel dos sapadores.

Apoios públicos e resposta às crises

Do lado do Governo, o discurso reforça a ideia de que os instrumentos financeiros existem, mas dependem da adesão dos beneficiários. Em declarações aos jornalistas, o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, destacou que já estão a ser pagos apoios até 10 mil euros e que decorrem concursos no âmbito do Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), com uma dotação inicial de 40 milhões de euros.

O governante sublinhou ainda que, caso seja necessário, os montantes poderão ser reforçados, rejeitando a ideia de falta de financiamento e insistindo na importância de os produtores apresentarem candidaturas. Paralelamente, anunciou a criação de um novo instrumento de 20 milhões de euros para apoiar prejuízos mais elevados.

A resposta inclui também medidas complementares, como linhas de crédito e apoios ao combustível, bem como incentivos diretos à gestão do território, incluindo apoios por hectare para remoção de material lenhoso e investimentos na pastorícia extensiva. Sobre o envolvimento de empresas privadas em projetos ambientais, o ministro defendeu que estas devem ser incentivadas a contribuir, considerando que esse apoio é benéfico para a sustentabilidade e não deve ser excluído à partida.

Uma gestão exigente com recursos limitados

Na prática, a necessidade deste tipo de parcerias torna-se evidente quando se olha para o terreno. Em entrevista ao Conta Lá, Carlos Pais, presidente da Tapada Nacional de Mafra, explicou que gerir um território com mais de 800 hectares implica lidar com uma complexidade elevada, tanto ao nível ecológico como operacional.

O responsável reconhece que o principal desafio passa por conciliar conhecimento técnico com capacidade financeira, sublinhando que, apesar de já existir uma estratégia definida, “precisamos de fontes de financiamento (…) que nos permitam fazer as intervenções”. A limitação é estrutural: trata-se de um espaço que não gera receitas diretas significativas, o que dificulta a execução de trabalhos essenciais.

O impacto concreto do novo protocolo surge precisamente neste ponto. Segundo Carlos Pais, o acordo permitirá avançar com a gestão de cerca de 100 hectares, traduzindo-se numa intervenção que até agora não era possível concretizar. Sem esse apoio, admite, “atrasaríamos no tempo aquilo que eram as nossas obrigações de gestão”.

A urgência destas intervenções foi agravada pelos danos provocados pelas intempéries recentes, que causaram prejuízos estimados em cerca de um milhão de euros. Apesar de algumas ações de emergência já terem sido realizadas, o responsável admite que “precisamos de muito mais”, evidenciando a distância entre as necessidades no terreno e os recursos disponíveis.

Assinatura do acordo entre Tapada de Mafra e Tabaqueira

 

O papel do setor privado: complemento ou dependência?

É neste contexto que surge o contributo da Tabaqueira, que financia o projeto com um investimento superior a 100 mil euros. O diretor-geral da empresa, Marcelo Nico, enquadra esta intervenção numa estratégia mais ampla de sustentabilidade, que inclui a redução da pegada industrial e o apoio à biodiversidade.

Segundo o responsável, o projeto tem três objetivos principais: aumentar a resiliência da Tapada aos incêndios, eliminar espécies invasoras e promover a reflorestação em áreas afetadas por tempestades ou incêndios. Trata-se de uma intervenção com duração prevista de um ano e meio. Perante críticas associadas a este tipo de iniciativas – frequentemente classificadas como greenwashing – Marcelo Nico defende que a atuação da empresa deve ser analisada de forma global, destacando investimentos paralelos na redução de consumo de energia e água e na utilização de fontes renováveis.

Ainda assim, o caso levanta uma questão mais ampla: até que ponto o financiamento privado está a complementar – ou a substituir – aquilo que deveria ser assegurado por investimento público. A resposta, implícita nas declarações recolhidas, aponta para uma realidade híbrida, em que a colaboração surge como solução prática para limitações persistentes.

Um modelo em construção

O protocolo assinado na Tapada de Mafra surge, assim, como um exemplo concreto de uma abordagem que combina financiamento público e privado para responder a desafios estruturais da floresta portuguesa. A sua replicação noutras regiões é vista como possível pelo Governo, desde que exista articulação entre diferentes entidades.

No entanto, a necessidade de recorrer a este tipo de soluções expõe uma fragilidade persistente: a dificuldade em assegurar, de forma consistente e autónoma, a gestão de espaços florestais com elevado valor ecológico.

Entre a urgência da intervenção e a limitação dos recursos, a floresta portuguesa continua a depender de equilíbrios delicados. E, como demonstrou Mafra, a resposta pode estar menos em soluções isoladas e mais na capacidade de construir e sustentar modelos de cooperação eficazes.