Corços provocam prejuízos avultados nos fruticultores da Cova da Beira
Vários fruticultores na Cova da Beira relatam um aumento de danos provocados nas árvores por corços, que atrasam o início da produção de novas plantas, a destruição de outras, e defendem que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) deve tornar o controlo da espécie mais eficaz. “Os corços, neste momento, estão a provocar mais estragos do que os javalis”, frisa Bruno Fiadeiro, engenheiro técnico de agropecuária, que viu a sua plantação de medronheiros em Terlamonte, concelho da Covilhã, bastante afetada.
Segundo Bruno Fiadeiro, cada vez que os corços entram nas suas propriedades, perde dois anos no desenvolvimento das plantas novas e atrasa a entrada em produção. “Eu tenho plantas com três anos, daqui a dois anos deviam estar a produzir e, com o estrago que me fizeram este ano, tenho dois anos em atraso. Cada vez que eles atacam, são dois anos que eu perco no início da produção”, queixa-se o engenheiro, que todos os anos investe dois mil euros na renovação das plantações.
O problema é comum a fruticultores de vários concelhos entre o Fundão, Covilhã e Belmonte. David Borges, produtor de cereja na Enxabarda, concelho do Fundão, debate-se com esta dificuldade há cerca de seis anos. Há três meses plantou meio hectare de oliveiras, que já estão danificadas, porque os animais comem os rebentos. No caso dos pomares de cereja, que tem vedados por uma cerca de 1,5 metros de altura, também não escapam. "Estragam tudo. São piores do que os javalis". E elabora: "Os javalis atacam mais a cerejeira quando tem fruta. O corço não. Assim que começa a floração, é para esquecer, estragam tudo. Se uma planta está a rebentar, fica sem nada, e muitas vão morrer”, lamenta David Borges.
O produtor diz que a vedação não é dissuasora. “Eles são grandes e chegam a quase todo o lado. Quando não chegam, empinam-se nas árvores e partem”, conta, que se manifesta desesperado com a inexistência de “controlo na procriação” dos corços. Apesar de ser uma espécie que se quer preservar, David Borges salienta que não pode ser a qualquer custo e defende que os animais têm de estar em zonas devidamente vedadas. “Têm de ser criadas medidas de controlo desta praga” e deve ser dada maior abertura aos caçadores nesse desígnio.
Bruno Fiadeiro dá o exemplo de duas mil plantas de medronheiros destruídas no Dominguizo, Covilhã, na propriedade de um vizinho, e de relatos que se multiplicam, uma vez que o problema “está disseminado” e afeta várias culturas. O produtor explica que os corços comem os rebentos das árvores novas, danificam as adultas e, no processo da muda dos cornos dos machos, a comichão fá-los coçarem-se nas árvores até chegarem à madeira, prejudicando a circulação da seiva. “Há uma ferida exposta e depois há a entrada das bactérias, de todos os elementos nocivos para as plantas”, refere.
Produtores consideram controlo da espécie insuficiente
“Se existe uma lei para o prejuízo do javali, porque se considera que é uma praga, também tem de haver para esta espécie, porque a atual lei não serve os interesses da agricultura”, realça Bruno Fiadeiro, em declarações ao Conta Lá.
O engenheiro técnico diz que existe resistência no controlo da espécie e que a política atual só permite o abate de dois machos por ano, em março, após a época da cobrição e quando perdem os cornos, tornando difícil a sua distinção das fêmeas. Um cenário que os fruticultores consideram insuficiente para controlar o crescimento exponencial da população e que agrava os prejuízos dos agricultores.
Vários produtores reuniram testemunhos e provas documentais dos danos e Bruno Fiadeiro tem marcada uma reunião com o ICNF a 3 de março, para expor a situação, e pedir que sejam criadas medidas de controlo populacional mais “musculadas”, uma vez que os fruticultores consideram as atuais “restritivas, ineficazes” e prejudiciais para a agricultura.
“A população está a crescer exponencialmente e ninguém quer saber. Imputam responsabilidades às associações de caça, que não podem fazer nada, porque não conseguem fazer mais do que lhes é permitido. A lei vai ter de ser ajustada. Vai ter de ser mudada, no sentido de criar condições para as associações de caça fazerem o controle”, preconiza Bruno Fiadeiro.
David Borges garante que as suas queixas são transversais aos restantes fruticultores da zona e comenta que, embora este seja um problema que se arrasta “há seis ou sete anos”, com os incêndios que assolaram a região no último verão, e que afetaram pomares, “eles agora estão mais perto das povoações, porque não há o que comer na serra” e deixaram de estar dispersos por uma área maior.
“Eu já nem quero fazer contas ao que estou a perder. Quero é que a situação seja resolvida, porque são muitas as pessoas que se estão a queixar e os prejuízos são imensos”, salienta Bruno Fiadeiro.