Em Portugal, a água não é “um recurso escasso” mas está “a ser mal aproveitado”
O primeiro momento de discussão do dia, na emissão especial do Conta Lá que acompanha a Feira do Ribatejo em Santarém, com especial atenção para os temas em destaque do setor, contou com a presença de Luís Seabra, Presidente da ARR - Associação de Agricultores do Ribatejo.
No debate “O Futuro da Água na Agricultura”, conduzido pela jornalista Estela Machado, o responsável, que esteve vários anos ligado ativamente à rega no setor, afirma que para os agricultores “a água é entendida como um recurso, Portugal tem esse recurso e não é escasso”.
“Não sou eu que o digo, o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro na Ovibeja, assim o dizia, não é escasso ele está mal aproveitado”, sublinha Luís Seabra que afirmou que o problema da água é justificado pela má gestão.
O Presidente da ARR refere momentos em que os agricultores e responsáveis do setor se uniram para encontrar soluções, dando como exemplo o manifesto que há quatro anos as três CIM do Tejo (Beira baixa, Médio Tejo e Lezíria do Tejo) assinaram, “a pedir e a exigir que fosse tratado o assunto da construção da barragem do Ocreza para aumentar as capacidades”.
“Isso foi um passo, a resposta foi: temos um projeto minimalista de barragem no projeto Água que Une”, acrescenta.
Sobre a Estratégia Nacional para a Gestão da Água, “A Água que Une”, Luís Seabra destaca o mérito da manutenção de “infraestruturas hidráulicas que estavam abandonadas há épocas” e o papel da interligação no país.
No entanto, o presidente da associação acusa o Governo de “preconceito político” no que diz respeito à “necessidade de aumentar o armazenamento e fazer transvase norte-sul”.
Apesar de estar previsto um transvase do Tejo para o Guadiana, Luís Seabra acredita que a medida foi “posta para “maquilhar”. Diz que a Ministra do Ambiente, em declarações no ano passado, admitiu claramente que não acredita na viabilidade das transferências entre bacias hidrográficas para unir o território.
“Acho completamente absurdo (...) se não fizermos transferências entre bacias hidrográficas ficamos com a água onde ela cai”, admite o presidente da ARR.
Luís Seabra levanta ainda outros problemas no setor: “temos água a norte do Tejo mas não temos a sul (...) o tema que Portugal tem agora é saber se quer usar o recurso que tem a norte ou ele se segue o seu caminho natural”, exemplifica.
O representante da ARR alerta ainda para uma situação paradoxal. “No plano estratégico a armazenagem está prevista em barragens novas [atingir] os 500 hm³, é 10% do que nós consumimos, mas é cerca de 1% das corrências superficiais anuais. Estamos a ser completamente minimalistas. É metade da Barragem de Castelo de Bode”, esclarece.
A inaugurar o evento em Santarém esteve a Ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, que garantiou que o Governo está a fazer uma “boa gestão de água”.
A ministra refere que o Estado está a cumprir com as “promessas adiadas por sucessivos governos".
"Nós não prometemos, nós executamos”, garante Maria da Graça Carvalho.
A responsável pela tutela do ambiente dá vários exemplos de projetos a decorrer para mostrar que o executivo "tem obra no terreno".
Fala em cerca de 800 milhões de euros "só no ciclo urbano da água, sem contar com a agricultura", no Algarve e diz que a prioridade está agora centrada no Alentejo. Sobre a região, aborda o Pisão, "uma obra esperada há 70 anos e que teimamos em levar para a frente" mas menciona também obras das águas públicas do Alentejo no valor de 250 milhões e uma dessalinizadora para Sines, no valor de 120 milhões.
O “Futuro da Água na Agricultura” foi o tema em destaque na primeira parte da emissão do Conta Lá na FNA, onde se debatem os temas da agenda pública do setor.
A 62.ª edição da Feira do Ribatejo decorre sob o mote “O Grande Poder dos Pequenos Frutos”.