Europa, técnica e soberania alimentar marcam arranque do Congresso Nacional do Milho

O Conta Lá esteve esta quarta-feira no arranque do XVI Congresso Nacional do Milho, em Santarém, onde produtores, académicos e responsáveis políticos debateram os 40 anos de integração europeia e os desafios técnicos que se colocam à produção de cereais em Portugal.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
12 fev. 2026, 08:00

O Conta Lá marcou presença esta quarta-feira, 11 de fevereiro, no primeiro dia do XVI Congresso Nacional do Milho, que decorre no CNEMA, em Santarém, e que este ano se realiza em simultâneo com o Segundo Encontro Nacional das Culturas Cerealíferas. A iniciativa, promovida pela Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo (ANPROMIS), juntou mais de 600 participantes entre agricultores, técnicos, investigadores, representantes da indústria e decisores políticos.

A sessão de abertura contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Santarém, João Teixeira Leite, seguindo-se a intervenção do presidente da ANPROMIS.

“É com enorme satisfação e também com um forte sentido de responsabilidade que vos dou a todos as boas-vindas ao 16.º Congresso Nacional do Milho”, afirmou Jorge Neves, sublinhando que o encontro pretende ser um espaço de diálogo e construção de soluções. Num ano em que se assinalam 40 anos da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE), o responsável defendeu que o olhar para estas quatro décadas deve ser feito “com rigor” e focado no futuro.

Jorge Neves alertou ainda que “a produção de cereais deixa de ser apenas uma questão económica ou agrícola. Passa a ser uma questão de soberania e de segurança alimentar”, lembrando o elevado défice cerealífero nacional e a necessidade de políticas mais coerentes e previsíveis.

Quatro décadas de integração europeia

O primeiro painel foi dedicado ao tema “Portugal: 40 anos de integração europeia” e reuniu diferentes perspetivas sobre o impacto da União Europeia no setor.

“A agricultura europeia evoluiu imenso e a portuguesa também”, afirmou Carlos Coelho, comissário nacional para as comemorações dos 40 anos da União Europeia, em entrevista ao Conta Lá. O responsável recordou que, à data da adesão, a produtividade dos cereais rondava “uma tonelada por hectare” e que hoje ultrapassa “as cinco toneladas”, sinal de investimento, tecnologia e melhoria das condições de produção.

O comissário destacou ainda que, num “mundo incerto”, a segurança alimentar e a competitividade são desafios centrais. “A soberania alimentar não pode ser apenas uma soberania nacional, tem de ser uma soberania europeia”, defendeu.

Também Arlindo Cunha, ex-ministro da Agricultura, considerou que a integração europeia permitiu “uma modernização completa da nossa agricultura”. Recordando o contexto anterior à adesão, marcado por protecionismo e ineficiência produtiva, o antigo governante afirmou que o setor se tornou mais competitivo, ainda que mais pequeno em dimensão.

Em entrevista ao Conta Lá, deixou alertas claros para o futuro. O envelhecimento da população agrícola é, para si, a maior vulnerabilidade: “A percentagem de agricultores com menos de 40 anos já é inferior a 4%.” Defendeu ainda a necessidade de reforçar a organização económica da produção, melhorar o poder negocial dos agricultores na cadeia de valor, investir no regadio e apoiar a inovação tecnológica.

Pedro Oliveira, diretor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), trouxe ao debate a dimensão do ensino e da investigação. Desde a adesão à CEE, afirmou, o ensino superior transformou-se profundamente, com crescimento do número de alunos e da produção científica. Olhando para o futuro, apontou a inteligência artificial como ferramenta com impacto também no setor primário. “Estamos num momento em que a inteligência artificial vai, de facto, mudar muitos setores”, referiu ao Conta Lá, explicando que poderá ajudar agricultores a tomar decisões mais informadas, desde a sementeira até à colheita.

Congresso Nacional do Milho

 

Produção de cereais e desafios técnicos

O segundo painel centrou-se na produção de cereais e nos desafios técnicos que se colocam ao setor, num contexto de alterações climáticas e instabilidade meteorológica.

Antonio Villarroel, diretor-geral da ANOVE (Asociación Nacional de Obtentores Vegetales de Espanha) afirmou ao Conta Lá que o principal desafio técnico é claro: “Estamos claramente a assistir a uma mudança no clima.” O responsável referiu ondas de calor, secas, frio e chuva intensa como fatores que colocam em risco a produção, defendendo que o melhoramento genético será determinante para manter rendimentos e competitividade.

"O melhoramento genético demonstrou nos últimos 50 anos que é uma ferramenta fundamental”, salientou ao Conta Lá, recordando que os rendimentos dos cereais passaram de cerca de mil quilos por hectare para valores que podem atingir os seis mil quilos em anos medianamente bons.

No entanto, alertou para entraves regulatórios na Europa que estão a travar a inovação. Segundo explicou em entrevista ao Conta Lá, o princípio da precaução aplicado pela União Europeia tem dificultado a aprovação de novas tecnologias de edição genética, como as técnicas CRISPR. “Estas tecnologias são totalmente seguras porque não introduzem ADN de outra espécie; limitam-se a corrigir genes que não funcionam bem ou a ativar genes que conferem resistência a doenças, melhor aproveitamento da água ou resistência ao calor”, afirmou.

Para o responsável da ANOVE, a ausência de um enquadramento regulatório favorável está a colocar os agricultores europeus em desvantagem face a outros países. Sem acesso a estas ferramentas, “praticamente condena os agricultores europeus a continuar a produzir com tecnologias cada vez mais obsoletas e menos competitivas”, advertiu.

Além dos desafios técnicos e regulatórios, Antonio Villarroel chamou ainda a atenção para um problema de perceção pública. Na nossa entrevista, considerou que a agricultura deixou de estar no topo das prioridades políticas e sociais. “Provavelmente porque, pela primeira vez na história da humanidade, a comida não é um problema”, afirmou, lembrando que hoje há alimento abundante, seguro e relativamente barato. Essa aparente normalidade, alertou, faz com que se esqueça que a produção agrícola é essencial e que, se deixar de ser assegurada na Europa, poderá comprometer a soberania alimentar num contexto geopolítico cada vez mais instável.

Também Ricardo Araque, diretor-geral da Hisparroz - principal produtora de sementes de arroz em Espanha - destacou ao Conta Lá a necessidade de adaptar variedades às novas condições climáticas. “As alterações climáticas afetam o cultivo do arroz e a missão das empresas obtentoras e dos próprios agricultores é procurar variedades com ciclos mais curtos”, explicou, defendendo igualmente maior igualdade regulatória entre produtores europeus e concorrentes externos.

Sobre as atuais condições meteorológicas que a Península Ibérica tem enfrentado desde janeiro, admitiu que poderá atrasar campanhas, mas sublinhou a importância de garantir reservas de água, essenciais para uma cultura exigente como o arroz.

Já Cristina Cruz, professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigadora no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, colocou o foco na saúde dos solos. “Não há agricultura sustentável sem um solo vivo”, afirmou ao Conta Lá, explicando que um solo funcionalmente diverso é essencial para a eficiência no uso de nutrientes e água. Alertou também para o risco de erosão e perda de matéria orgânica com fenómenos extremos, com consequências tanto para a produtividade como para o equilíbrio ambiental.

Um espaço de estratégia para o setor

Ao longo do primeiro dia, o congresso afirmou-se como um espaço de reflexão estratégica para a fileira cerealífera, cruzando política europeia, inovação tecnológica e desafios ambientais.

Promovido pela ANPROMIS, o encontro reforça a articulação entre diferentes culturas e associações, assumindo-se como um fórum central para discutir produtividade, sustentabilidade e soberania alimentar num contexto geopolítico cada vez mais exigente.

O Conta Lá acompanhou os principais momentos do primeiro dia e marcará presença no segundo e último do congresso, 12 de fevereiro.