Língua Azul: ainda sem apoios para compensar prejuízos, agricultores receiam que verba para vacinas seja "insuficiente"
A Associação de Agricultores do Sul (ACOS) lamenta que ainda não tenham sido delineadas "medidas de apoio aos produtores que sofreram o impacto da Língua Azul" no ano passado. Ao Conta Lá, o vice-presidente da ACOS, Miguel Madeira, médico veterinário responsável pela sanidade animal, afirma que "a taxa de mortalidade nas regiões mais afetadas foi duas a três vezes superior ao habitual durante os meses de setembro, outubro e parte de novembro" e destaca o elevado número de animais que adoeceram, "muitos deles de forma crónica".
"Apesar de já termos manifestado várias vezes a nossa preocupação junto do ministro da Agricultura, continuamos a constatar que, até à data, não foram delineadas medidas de apoio aos produtores que sofreram o impacto da doença em 2025, medidas estas que deveriam ser já acauteladas para 2026 na eventualidade da Língua Azul voltar a causar sérios prejuízos", sublinha.
A doença da Língua Azul ou Febre Catarral Ovina é uma doença viral, de notificação obrigatória, que afeta os ruminantes e não é transmissível a humanos. No ano passado, centenas de explorações foram afetadas no Alentejo.
Miguel Madeira lembra que, além da mortalidade, esta doença causou "uma quebra abrupta na produção de leite", gerando abortos, exigindo tratamentos e "acréscimo de mão de obra", o que gerou "um impacto muito significativo na economia das explorações pecuárias".
O vice-presidente da ACOS nota que "a única arma eficaz" para evitar ou reduzir o impacto da doença nos rebanhos assenta "na vacinação atempada e massiva contra os serotipos dos vírus atualmente a circular em Portugal", mas receia que a verba para a aquisição de vacinas se revele insuficiente este ano.
"Para a aquisição das vacinas contra a Língua Azul em 2026, à semelhança do que aconteceu em 2025, foi garantida pelo Ministério da Agricultura uma verba de 4 milhões de euros, verba esta que se pode revelar insuficiente se a adesão à vacinação por parte dos produtores de ovinos, bovinos e caprinos for massiva", explica ao Conta Lá.
As preocupações dos agricultores foram manifestadas à tutela, nos dias 9 e 10 de abril, numa visita do ministro José Manuel Fernandes à região.
Outro assunto abordado nesta visita foi o declínio do montado de sobro e azinho, que Miguel Madeira assume ser "um processo complexo, multifatorial e ainda não completamente compreendido".
'A ACOS, em conjunto com outras organizações de agricultores, integra o Gabinete Local de Acompanhamento (GLA) da medida agro-ambiental 'Gestão do Montado por Resultados', do PEPAC. Esta medida procura mudar o paradigma do apoio ao montado, através da transição de apoios à adoção de práticas para apoios pagos pela obtenção de resultados concretos e mensuráveis, sendo, por isso, particularmente promissora", sublinha.
O médico veterinário refere que "são ainda necessários apoios a questões de carácter mais estrutural, nomeadamente correções de solo, adensamentos e promoção e proteção da regeneração natural", lembrando que "os processos inerentes à recuperação do montado são lentos" e "é imprescindível que as política reflitam sses horizontes temporais alargados, de modo a conferir um quadro de estabilidade e confiança aos agricultores".