Pastores dizem trabalhar “para nada” com despesas mais altas: nesta Páscoa estão a vender cordeiros ao mesmo preço apesar de custos mais altos

Pastores de Bragança queixam-se de vender cordeiros ao mesmo preço do Natal, apesar do aumento dos custos de produção. O preço médio ronda os 80 euros por animal, valor considerado insuficiente face às despesas atuais.
Agência Lusa
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01 abr. 2026, 17:09

Pastores de Bragança queixaram-se esta quarta-feira de estarem a vender os cordeiros nesta época da Páscoa ao mesmo preço do Natal, apesar do aumento significativo dos custos de produção, sendo a atividade cada vez menos rentável.

Alcina Afonso vendeu 150 cordeiros esta semana. A seguir à época do Natal, esta é a altura que mais impacto tem na comercialização dos animais.

Em declarações à Lusa, esta pastora do concelho de Bragança disse que cada cordeiro foi vendido a 80 euros, o mesmo preço do Natal. No entanto, garantiu que os gastos não são os mesmos.

“Nem o gasóleo, nem as rações, nem os adubos, [no Natal] não estava nada ao preço de agora”, afirmou, salientando que “está tudo mais caro”.

Segundo a agricultora, um dos tratores que usa diariamente gasta atualmente, com a subida do preço dos combustíveis, cerca de 300 euros de gasóleo agrícola.

“É mesmo para deixar de trabalhar, com esta subida do gasóleo. (…) [O trator] é usado para tudo, para fazer comer aos animais, para colher, para limpar os estábulos, é para tudo, sem os tratores não vivíamos, não conseguíamos. Até para levar os amimais ao matadouro, para os transportar, é para tudo. Sem gasóleo parávamos completamente”, explicou.

Tendo em conta este aumento de custos de produção, bem como o trabalho com os animais, Alcina Afonso considera que o valor justo por cada cordeiro deveria ser 100 euros.

A agricultora tem mais de 500 ovelhas da raça churra galega bragançana. Todos os dias leva os animais para o pasto, onde comem erva, assegurando que dá qualidade à carne. Apenas no inverno os cordeiros são criados no estábulo, o que representa um gasto de 45 euros, por dia, em alimento.

Apesar de não desistir do setor e de ser esta a sua vida, porque já o faz há 40 anos, vincou que já não sabe se compensa. “É trabalhar, trabalhar para nada, para no fim do ano ter menos do que ter no princípio”, afirmou.

São poucos os jovens que querem ser pastores e, por isso, “os rebanhos estão a acabar todos”.

Os que ainda existem são mantidos por pessoas mais velhas, como Alcina Afonso e Ana Maria Reis.

Ana Maria Reis, pastora também do concelho de Bragança, vendeu 20 cordeiros nesta época festiva, a 80 ou 90 euros por cabeça. “Podiam dar mais um bocadinho, porque uma pessoa leva muito trabalho para os criar”, queixou-se.

No Natal e na Páscoa é quando vende mais cordeiros, mas “durante o ano é para esquecer”. E o grão, a palha e a água, disse à Lusa, fica “tudo muito caro”, porque o preço do grão “subiu muito” e o do combustível “nem se fala”.

“Para um lavrador, está pela hora da morte”, afirmou Ana Maria Reis que, apesar de lamentar, disse que é preciso “aguentar”, porque é este o seu ganha-pão e do marido.

Um trabalho que admitiu ser duro e difícil, no qual é preciso ter pernas, porque se anda muito, contrariamente ao ditado que “diz que a vida de pastor é a vida de senhor”.

É por isso que pensa que o futuro do setor está em causa, porque já só “meia dúzia” de jovens ainda se dedicam à atividade.

“As coisas estão cada vez mais caras e os jovens não estão para se empenhar”, disse.

Uma coisa é certa, apesar de a criação de gado ser cada vez menos rentável, tanto Alcina Afonso como Ana Maria Reis afirmaram, sem qualquer hesitação, que não deixariam a profissão, porque andar no campo é “diferente”.