“Temos animais que ainda hoje tremem”: o impacto da Kristin nos abrigos

A passagem da depressão Kristin deixou um rasto de destruição em várias regiões do país, atingindo também associações de proteção animal que viram abrigos danificados, animais em risco e estruturas improvisadas a ceder. Através dos testemunhos de responsáveis de três associações, esta reportagem mostra o impacto da tempestade e os desafios que ainda permanecem.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
05 fev. 2026, 08:00

“Temos animais que ainda hoje tremem. Ainda não recuperaram do susto, nem conseguimos imaginar o que viveram naquela noite”, começou por explicar Carla Ferreira, representante da APABA - Os Bons Amigos, em entrevista ao Conta Lá. A frase resume o impacto da depressão Kristin num abrigo improvisado na Golegã, onde telhados voaram, estruturas cederam e vários animais ficaram expostos ao vento e à chuva durante horas.

A passagem da tempestade, no final de janeiro, provocou danos significativos em várias regiões do país, em particular no Centro e no Oeste, deixando populações sem eletricidade, comunicações e abrigo. Entre as estruturas afetadas estiveram também associações de proteção animal, muitas delas já a funcionar no limite dos recursos e que, de um momento para o outro, viram os seus espaços de acolhimento parcial ou totalmente destruídos. À semelhança do que aconteceu em habitações e equipamentos públicos, também estes abrigos sofreram colapsos estruturais, infiltrações, quedas de muros e destruição de telhados.

 

Abrigos improvisados e animais desaparecidos na Golegã

A APABA é uma associação de pequena dimensão que se dedica ao resgate, tratamento veterinário, esterilização e encaminhamento para adoção de animais abandonados. Atualmente, tem cerca de 47 animais ao seu cuidado, distribuídos por um abrigo principal numa quinta emprestada, um canil municipal que gere e vários espaços em famílias de acolhimento.

Foi precisamente essa dispersão que agravou o impacto da tempestade. “O que a depressão veio fazer foi destruir os abrigos que tínhamos em famílias de acolhimento. No canil houve telhados que voaram e os animais passaram a noite inteira à chuva, com chapas a bater”, relatou Carla Ferreira. No canil municipal, o telhado ficou totalmente destruído, obrigando à retirada urgente dos cães durante a madrugada.

Apesar de não haver feridos graves, o impacto psicológico nos animais foi evidente. “Há uma cadelinha que não para de tremer. Fisicamente não está ferida, mas psicologicamente está muito mal”, contou. A associação registou também fugas: uma cadela e um gato continuam desaparecidos, depois de estruturas e vedações terem cedido com a força do vento.

Os danos materiais rapidamente se traduziram em custos incomportáveis. Só para a reposição de telhados e mão de obra, a APABA recebeu orçamentos na ordem dos três mil euros. Parte das reparações foi feita de forma improvisada, com materiais doados, mas a falta de mão de obra especializada continua a ser um dos principais entraves à recuperação.

O abrigo da Adoption Dogs Portugal, localizado numa zona baixa de Leiria, ficou inundado após dias de chuva intensa | Adoption Dogs Portugal

 

Telhados a cair e paredes dentro das boxes na Marinha Grande

Na Marinha Grande, o cenário foi semelhante, mas à escala de uma associação muito maior. A APAMG - Associação Protetora de Animais da Marinha Grande gere dois abrigos distintos, um canil e um gatil, que acolhem atualmente cerca de 65 cães e 100 gatos. Ambos sofreram danos estruturais graves com a passagem da tempestade.

“Os telhados voaram parcialmente e o mais assustador foi termos paredes de cimento a cair para dentro das boxes onde estavam cães e gatos”, explicou Catarina Contente, presidente da associação. O primeiro impacto foi de choque. Voluntários chegaram ao local sem saber quantos animais encontrariam soterrados. Felizmente, todos sobreviveram, embora tenham sido registadas fugas, incluindo uma cadela e uma gata que continuam desaparecidas.

A falta de comunicações e de água agravou ainda mais a resposta inicial. Muitos voluntários tinham também as próprias casas danificadas, o que dificultou a mobilização imediata. Ainda assim, em poucos dias, a associação conseguiu “remendar” telhados e vedações, recorrendo a ajuda espontânea da população, para garantir condições mínimas de segurança antes da chegada de novo mau tempo.

Além dos danos diretos nos abrigos, a APAMG enfrentou uma avalanche de pedidos externos. “Tivemos pessoas a pedir ajuda, porque os portões das casas caíram, os muros ruíram, os animais fugiram assustados. E continuamos a receber pedidos todos os dias”, relatou Catarina Contente, sublinhando que, numa fase destas, a associação não é apenas vítima, mas também um ponto de apoio para toda a comunidade.

O abrigo da Adoption Dogs Portugal, localizado numa zona baixa de Leiria, ficou inundado após dias de chuva intensa | Adoption Dogs Portugal

 

Inundações e evacuação preventiva em Leiria

No distrito de Coimbra, a Adoption Dogs Portugal viveu uma situação distinta, mas igualmente crítica. O abrigo, localizado numa zona baixa, ficou inundado após dias de chuva intensa. “Fiquei horrorizada ao encontrar o pátio e os alojamentos alagados e os cães muito aflitos”, descreveu-nos Jessica Twentyman, presidente da associação.

Perante o agravamento das condições, foi tomada a decisão de evacuar os cinco cães acolhidos, todos fêmeas, recorrendo a um terreno mais alto e ao apoio de voluntários. A evacuação evitou consequências mais graves e não houve feridos, mas a situação expôs a vulnerabilidade de infraestruturas simples perante fenómenos extremos cada vez mais frequentes.

Apesar de os danos materiais terem sido limitados, a tempestade representou uma crise operacional, obrigando à limpeza intensiva do espaço e à substituição de equipamentos básicos. “A tempestade Kristin representou uma crise para o nosso abrigo. Somos uma associação pequena, porém forte, e sabemos que esta crise irá passar”, afirmou Jessica Twentyman, sublinhando a importância do apoio contínuo para garantir alimentação e cuidados veterinários.

O abrigo da Adoption Dogs Portugal, localizado numa zona baixa de Leiria, ficou inundado após dias de chuva intensa | Adoption Dogs Portugal

 

Solidariedade imediata, fragilidade estrutural persistente

Nas três associações, a resposta da população foi rápida e significativa, com doações de materiais, dinheiro e alimentos. No entanto, os testemunhos convergem num ponto essencial: a ajuda imediata permitiu conter a emergência, mas não resolve problemas estruturais antigos.

“Manter uma associação destas custa-nos perto de dez mil euros por mês. Andamos sempre no limite”, explicou Catarina Contente, da APAMG. Por seu turno, Carla Ferreira lembra que o simples resgate de um animal representa, à partida, centenas de euros em cuidados veterinários, mesmo antes de qualquer adoção.

A depressão Kristin expôs, assim, uma realidade já conhecida no terreno. As associações de proteção animal funcionam muitas vezes em estruturas precárias, dependentes da boa vontade de voluntários, de espaços emprestados e de uma solidariedade que surge em força nos momentos de crise, mas que é difícil de manter ao longo do tempo.

 

Uma vulnerabilidade que não desaparece com o fim da tempestade

À medida que o país entra numa fase de recuperação, os abrigos continuam a lidar com telhados improvisados, vedações frágeis e a pressão constante de novos pedidos de ajuda. As entrevistadas sublinham que fenómenos extremos como a depressão Kristin não criam estes problemas, mas tornam visível uma fragilidade que já existia, muitas vezes fora do radar das respostas de emergência.

Para associações que funcionam com recursos limitados e dependem quase exclusivamente do voluntariado, cada intempérie representa um risco acrescido. A destruição de infraestruturas não compromete apenas o acolhimento imediato dos animais, mas reduz a capacidade de resposta futura, num contexto em que continuam a surgir situações de abandono, fuga ou perda de animais provocadas pelo próprio temporal.

Num contexto de alterações climáticas e eventos meteorológicos cada vez mais intensos, a situação vivida por estas associações levanta uma questão estrutural que vai além da resposta à emergência. Sem investimento, planeamento e reconhecimento do papel que desempenham no território, os abrigos de animais continuarão a ser dos primeiros a ceder quando a próxima tempestade chegar.