2025 foi um ano com poucos raios, mas um só dia fez disparar os números em Portugal
Portugal registou menos raios em 2025, mas uma tempestade concentrou mais de um quarto das descargas elétricas do ano em apenas 24 horas. O climatologista Mário Marques explica que anos com pouca atividade elétrica podem ter episódios isolados muito intensos.
O ano de 2025 foi, em geral, tranquilo no que toca a trovoadas em Portugal. No total, foram registados 18.496 raios nuvem-solo em todo o país, menos do que em anos anteriores. Mas num só dia, os números dispararam.
No dia 5 de novembro, uma forte tempestade atravessou Portugal e deixou mais de 5.500 raios em apenas 24 horas. Foi um dos dias com mais descargas elétricas dos últimos anos no país e, sozinho, representa mais de um quarto de toda a atividade elétrica registada em 2025 no país.
Os números constam num relatório da Meteorage que diz que esta tempestade chegou na noite de 4 para 5 de novembro, vinda do Atlântico. Durante a madrugada e a manhã, atravessou grande parte do território com chuva intensa, vento forte e trovoada. Pelo caminho, deixou vários estragos: 163 quedas de árvores, 77 estradas obstruídas, 76 colapsos estruturais e 31 movimentos de terras.
Para o climatologista Mário Marques, este tipo de situação pode acontecer e não é necessariamente anormal. “Pode acontecer termos um ano com poucos raios e depois um dia que concentra uma grande parte da atividade elétrica”, explicou, em entrevista ao Conta Lá. Segundo o especialista, “não foi um ano com muitos raios, mas também não foi muito atípico”.
Apesar deste episódio intenso, o resto do ano foi relativamente calmo. A primavera registou cerca de 4.595 raios e o verão ficou pelos 3.500, valores considerados baixos para a época, aponta o documento.
Segundo Mário Marques, a tendência até pode estar a mudar ao longo dos últimos anos: “O número de dias de trovoada tem vindo a diminuir. Há menos instabilidade associada a trovoadas do que havia há algumas décadas”, refere.
O grande destaque acabou por ser o mês de novembro, que somou cerca de 8.300 raios, quase metade de todos os registados no ano e um novo recorde para aquele mês em Portugal.
Santarém foi o distrito mais afetado
No mapa do país, Santarém foi o distrito mais afetado, com 2.558 raios, seguido de Castelo Branco e Beja. Os que tiveram menos, por sua vez, foram Lisboa e Leiria, com menos de mil. Quando falamos de concelhos, Castelo Branco também ocupa o topo da lista, com quase 500 raios, seguido por Chamusca e Idanha-a-Nova.
Mesmo assim, Portugal não é dos países europeus mais expostos a este tipo de fenómeno: “Não somos um país com muitos dias de trovoada. Há países na Europa que sofrem muito mais, como Espanha ou algumas regiões da Europa Central”, sublinha o climatologista.
Ainda assim, menos raios ao longo do ano não significa menos perigo. Uma única tempestade pode ser suficiente para causar danos sérios.
Um local com menos raios não é mais seguro
O especialista alerta que a sensação de segurança pode ser enganadora: “O facto de haver menos raios não quer dizer que o risco seja menor. O problema é a exposição das pessoas no momento em que a trovoada ocorre”, afirma.
Segundo Mário Marques, muitos acidentes acontecem em espaços abertos, sobretudo junto a água, praias, rios ou campos desportivos: “Grande parte das mortes por raio no mundo acontece em corpos de água ou em espaços abertos, porque o corpo humano é um bom condutor e muitas vezes é o ponto mais alto no terreno”, explica.
Em montanha, o risco também aumenta. “As trovoadas gostam de zonas montanhosas e de superfícies graníticas. Nessas áreas a probabilidade de descargas elétricas é maior”, acrescenta.
Em toda a Europa, 2025 também ficou marcado por menos tempestades do que o habitual. Ainda assim, os especialistas alertam que episódios isolados podem tornar-se mais intensos: “Pode haver menos dias de trovoada, mas quando acontecem podem ser mais fortes, porque há mais energia e mais humidade na atmosfera”.