Calor chega, mas mar continua perigoso: "afogamentos disparam na Páscoa com praias sem nadadores-salvadores"
O período da Páscoa continua a ser um dos mais críticos para afogamentos em Portugal, numa altura em que o bom tempo leva milhares de pessoas às praias e zonas ribeirinhas ainda sem vigilância. As autoridades alertam para o risco acrescido, agravado pelo facto de o mar manter características de inverno e pela ausência generalizada de nadadores-salvadores.
Segundo o presidente da Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores, Alexandre Tadeia, que falou esta quinta-feira com a jornalista Estela Machado no Objetiva, os dados mais recentes confirmam esta tendência preocupante. “Nestes períodos temos tido o dobro, e muitas vezes o triplo ou quatro vezes mais ocorrências. É um período muito, muito crítico para o afogamento em Portugal”, afirmou.
Nos últimos cinco anos, morreram 42 pessoas por afogamento durante a época da Páscoa. Para o responsável, esta realidade resulta de uma combinação de fatores: férias escolares, temperaturas elevadas e ausência de vigilância nas praias. “Há uma conjuntura de bom tempo e não existe ainda época balnear, o que aumenta significativamente o risco”, explicou.
Perante este cenário, Alexandre Tadeia defende uma mudança estrutural no modelo atual. “A época balnear não devia restringir-se ao período de verão, devia ser estendida a todo o ano”, sublinhou, acrescentando que essa decisão depende de vontade política: “Isto tem de ser mudado pelos políticos. Quem está no terreno está a fazer omeletes sem ovos”.
O responsável destacou ainda que, apesar de existirem milhares de nadadores-salvadores formados em Portugal, o modelo atual, que é muito dependente de estudantes disponíveis apenas no verão, limita a capacidade de resposta fora dessa época.
"O problema é o desconhecimento"
Também o diretor do Instituto de Socorros a Náufragos, Lourenço Gorricha, alertou para os perigos associados ao mar nesta altura do ano, rejeitando a ideia de que os acidentes resultem sobretudo de imprudência. “Ninguém se coloca em risco desnecessariamente. Muitas vezes o problema é o desconhecimento”, afirmou.
O comandante explicou que, apesar das temperaturas elevadas, o mar mantém características típicas do inverno. “É um mar com muita energia, com ondulação longa, que muitas vezes não é percecionada pelas pessoas, mas que pode gerar condições muito adversas”, disse.
Além disso, salientou que fora da época balnear não estão asseguradas condições essenciais de segurança. “Quando vamos para uma praia com assistência balnear, temos alguém a olhar por nós. Nesta altura, isso não acontece”, alertou, acrescentando que até a própria morfologia das praias pode ter mudado após as recentes tempestades.
Apesar de algumas autarquias reforçarem a vigilância durante períodos festivos e de a Autoridade Marítima Nacional aumentar a presença em zonas de maior afluência, os especialistas consideram que estas medidas são insuficientes face ao risco.
A prevenção, através da sensibilização da população e do reforço de meios, surge como prioridade, sobretudo num fim de semana de Páscoa marcado por temperaturas que podem atingir os 28 graus em várias regiões do país.