Coimbra preparada para retirar 9000 pessoas em caso de "cheia centenária"
Depois de já ter avançado com avisos de retiradas preventivas nos últimos dias de cerca de 3500 pessoas em zonas mais rurais do concelho, o município prepara-se agora para a possibilidade de retirar cerca de 9000 pessoas concentradas na malha urbana, que poderá vir a sofrer inundações, afirmou Ana Abrunhosa, em conferência de imprensa na Casa Municipal de Proteção Civil.
Segundo a autarca, caso o cenário de cheia centenária se confirme na manhã de sexta-feira, será necessário retirar pessoas de zonas urbanas do concelho, como é o caso da Baixa e do Rossio de Santa Clara.
“A nossa preocupação esta noite vai ser retirar pessoas acamadas […] e com especial preocupação com pessoas que vivem na rua. […] Vamos transportá-las para locais adequados, para outros lares ou unidades de cuidados continuados”, esclareceu Ana Abrunhosa.
A autarca admite que há “uma grande probabilidade” de as equipas das juntas e outras autoridades começarem a pedir às pessoas para saírem das suas casas, acrescentou, referindo que será nessa altura que haverá confirmação de cenário de cheia centenária.
No entanto, até às 10h30 desta sexta-feira não houve necessidade de evacuações.
“A noite correu melhor do que o esperado. Por isso, não emitimos ainda indicações de evacuação. Continuamos em alerta máximo”, afirmou a presidente de Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa.
Segundo a autarca, “espera-se uma manhã sem sobressaltos”, tendo sido pedido às pessoas em zonas de risco para estarem preparadas para sair de casa “a qualquer momento”.
Os munícipes em zonas que poderão ser potencialmente afetadas “devem proteger os seus bens, evitar deslocações desnecessárias e cumprir as orientações das autoridades”, disse.
Ana Abrunhosa afirmou que “os valores do caudal estão no limite” na barragem da Aguieira e no açude-ponte, referindo que se prevê um “dia complexo de acordo com a informação da APA [Agência Portuguesa do Ambiente]”.
A presidente da Câmara de Coimbra afirmou que está a decorrer uma reunião técnica da APA para avaliação e preparação do dia, estando prevista uma outra reunião, às 14h00, no Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil de Coimbra, com a presença da ministra do Ambiente e do secretário de Estado da Proteção Civil.
As zonas que serão potencialmente afetadas pela cheia em Coimbra são: zona ribeirinha de Torres do Mondego, Ceira, Conraria, Portela do Mondego, Quinta da Portela, Rossio de Santa Clara (e toda a cota baixa da freguesia), Baixa de Coimbra e zonas das ribeiras de Coselhas, Eiras, Fornos, Covões e Casais.
A presidente da Câmara de Coimbra indicou ainda que, caso se confirme o cenário de cheia centenária, na manhã de sexta-feira, as autoridades irão monitorizar as condições de circulação nas pontes de Santa Clara e viaduto do Itinerário Complementar 2 (IC2), que poderão ter de ser encerrados ao trânsito, caso se atinja um caudal demasiado elevado no açude-ponte que ponha em causa a segurança das infraestruturas.
Indicações da Proteção Civil
Este cenário poderá também implicar inundações na estação ferroviária de Coimbra-B e Casa do Sal e na Estrada Nacional 111, apelando-se às pessoas para terem especial cuidado com carros em parques de estacionamento e garagens.
A autarca apelou às pessoas para seguirem as indicações das juntas de freguesia e estarem atentas às comunicações da Proteção Civil.
“Nós vamos comunicando, a Proteção Civil mandará mensagens por telemóvel e vamos adaptando as mensagens e as restrições à medida que a situação evolua”, disse.
“Estamos a agir por precaução, porque até agora nós temos zero vítimas e o nosso objetivo é continuar apenas e só com danos materiais”, salientou.
Durante a última noite, a situação manteve-se estável, embora a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) tenha registado várias ocorrências relacionadas com a chuva e o vento forte na Região.
“As situações registadas em Coimbra não foram graves. Mantêm-se os alertas e a vigilância por causa dos caudais”, disse, adiantando que as situações foram principalmente inundações, quedas de árvores e estruturas.
De acordo com José Costa, entre as 00h00 e as 07h00 foram registadas 92 ocorrências relacionadas com o mau tempo, a maioria na região Centro com 39 e Lisboa e Vale do Tejo 37.
“Entre as ocorrências mais relevantes temos 33 quedas de árvores, 23 inundações, 14 quedas de estruturas e 13 movimentos de massa”, indicou.
Risco de evacuação em Coimbra mantém-se até ao final do dia
A situação dos caudais do Mondego esteve mais estável hoje de manhã, mas o risco de evacuação da baixa de Coimbra mantém-se até ao final do dia, disse hoje a Proteção Civil.
Em Carnaxide, Oeiras, o comandante nacional de Proteção Civil, Mário Silvestre, destacou que a precipitação foi “um pouco menos intensa” do que o previsto, pelo que a situação no Rio Mondego está estável.
“Não estamos, de alguma forma, a dizer que não vamos ter problema. Estamos a dizer que, neste momento, e com base naquilo que aconteceu durante a noite, temos aqui uma situação um pouco mais estável, menos gravosa. Mas o risco de podermos ter de vir a evacuar a zona baixa de Coimbra mantém-se até ao final do dia de hoje”, disse.
Juntas de Freguesia no terreno para alertar populações
A União de Freguesias de Coimbra está a percorrer toda a Baixa da cidade com seis equipas para avisar comerciantes e moradores para salvaguardarem bens face ao risco de inundações, afirmou o presidente da autarquia.
“Neste momento, a União de Freguesias de Coimbra tem seis equipas a percorrer toda a Baixa para avisar e dar conhecimento a todos os comerciantes e habitantes para retirarem os seus bens ou colocarem-nos em zonas mais seguras”, disse à agência Lusa Carlos Pinto.
“Às pessoas que estão no rés-do-chão estamos a pedir para saírem, face às grandes probabilidades de haver inundações”, disse Carlos Pinto.
Segundo o presidente da União das Freguesias de Coimbra, na Baixa, os comerciantes já estão a “tomar as devidas precauções” desde a noite de quinta-feira.
Além disso, explicou, durante a noite as pessoas mais fragilizadas e acamadas foram retiradas pela Câmara Municipal e pela Proteção Civil.
Na margem esquerda do rio Mondego, a União de Freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas também andou durante a noite a avisar comerciantes e moradores sobre o risco de inundação, disse à Lusa a presidente da autarquia, Bertília Simão.
Com água já na Rua das Parreiras, foi retirado um homem com mobilidade reduzida, mas os restantes moradores quiseram manter-se nas suas casas.
“A evolução, até agora, não é notável e as pessoas querem permanecer nas suas casas. Avisámos restaurantes, comércio e também moradores que tenham carros em garagens”, afirmou.
Segundo Bertília Simão, à meia-noite as equipas da junta ainda andavam a bater às portas das pessoas que têm negócios ou moram em zonas de risco na zona de Santa Clara de cota mais baixa.
Naquela freguesia, o Convento São Francisco decidiu encerrar o parque de estacionamento.