Mais de 1.500 papagaios-do-mar mortos na costa. "Números reais podem ser bastante superiores"
“O último registo que temos indica mais de 1.500 papagaios-do-mar mortos, já tentando tirar alguns casos duplicados, mas infelizmente, são muitos”. Quem o diz é Hany Alonso, Técnico Sénior de Ciência na SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves), em entrevista ao Conta Lá.
O alerta é deixado pela organização não governamental, que recolhe os dados de várias entidades como o ICNF e de cidadãos que identifiquem casos.
“É sempre uma contagem mínima, sabemos que nem toda a costa é monitorizada pelas pessoas e há praias muito extensas. Sabemos também que tem acontecido ao longo de toda a costa, portanto, é provável que os números reais sejam bastante superiores.”
As zonas onde são referenciados mais casos de papagaios-do-mar mortos são a costa de Peniche e a costa da Póvoa de Varzim. Têm surgido também muitos registos em Vagos e Mira, o que não significa que não esteja a acontecer noutros locais. “Muitas vezes também tem a ver com o esforço de prospeção, em algumas destas zonas também tem havido mais pessoas a reportar, a monitorizar as praias, a registar os casos”, explica o responsável.
O número de aves mortas nas últimas semanas já ultrapassa as 1.500 na costa portuguesa, mas esta é uma realidade além-fronteiras. “Tem havido muitos registos também na costa espanhola e na costa francesa. Na Galiza, por exemplo, já há mais de 2.000 e na costa francesa eles estimavam já números superiores aos 5.000”, adianta o técnico.
A SPEA indica como mais provável as tempestades consecutivas que têm ocorrido. Hany Alonso explica que apesar destas aves serem “bastante resistentes porque estão habituadas a estar no alto mar”, as tempestades ininterruptas enfraquecem-nas.
“As aves não têm condições para se alimentar, quer porque as próprias presas acabam por estar a profundidades maiores, quer porque as condições do mar em termos de visibilidade não são as melhores, quer também porque estas aves também têm algum desgaste energético à procura de alimento e a voar e em condições de tempestade esse desgaste acaba por ser maior”, aprofunda o técnico da SPEA.
Felizmente, nem todas as aves encontradas estão mortas e há situações em que é possível o resgate e a consequente recuperação.
“Neste momento, o principal que se pode fazer é o resgate das aves que ainda estão vivas e enviá-las para um centro de recuperação para ver se ainda conseguem sobreviver e depois ser libertadas”, sublinha Hany Alonso.
A organização disponibiliza uma aplicação - a ICAO-, que permite submeter dados das aves avistadas. Nos registos que chegam, há vários tipos de informação, desde fotografias, estimativa e contagem do número de indivíduos, as coordenadas dos sítios e a data. Só assim se consegue compilar mais informação, segundo o técnico. Além dessa ferramenta, é possível enviar informação via e-mail ou WhatsApp, desde que contenha a informação base essencial.
A longo prazo, será possível estudar o impacto na população dos papagaios-do-mar. Para a organização é também importante “trabalhar para mitigar o efeito das alterações climáticas à escala global”.
Estas aves, “importantes em diferentes escalas”, têm vindo a sofrer com outros eventos, como a “poluição, nomeadamente às vezes com as capturas acidentais, na atividade pesqueira”, detalha o técnico.
A SPEA quer alertar ainda para o que está a acontecer nos oceanos: “As aves marinhas acabam por funcionar às vezes como um indicador. Quando temos muitos milhares de papagaios-do-mar a arrojar mortos, estamos a ver os impactos negativos que estas tempestades têm nos oceanos mas também os impactos negativos que o Homem acaba por ter, por exemplo com a poluição, porque muitas aves marinhas hoje sofrem por causa do impacto dos plásticos e acabam por ter níveis de mortalidade mais elevados do que o natural”, explica.
“A maior parte do tempo não nos lembramos dos papagaios-do-mar nas nossas águas porque não os vemos, mas a verdade é que dependem destas águas durante grande parte do seu ciclo anual de vida e portanto é importante nós protegermos os oceanos para que eles continuem a albergar esta e outras espécies marinhas”, conclui.