Portugal pode antecipar neutralidade climática em uma década e poupar milhões de euros
Portugal e Espanha têm capacidade para alcançar emissões líquidas nulas já em 2040, antecipando em dez anos a meta definida pela Comissão Europeia. A conclusão consta de um relatório divulgado pela Greenpeace, que apresenta um modelo energético assente em redução do consumo, eficiência e recurso exclusivo a fontes renováveis.
O estudo “Energia para viver melhor” foi desenvolvido pelo Institute for Sustainable Futures da Universidade Tecnológica de Sydney e analisa 20 setores económicos. A principal proposta passa por uma redução de 39% na procura final de energia até 2040, mantendo simultaneamente a cobertura total através de energias renováveis.
Segundo o relatório, esta transição permitiria a Portugal poupar cerca de 7 mil milhões de euros por ano em custos associados à produção de eletricidade, calor e importação de combustíveis, em comparação com a manutenção das políticas atuais.
A diminuição do consumo energético prevista assenta em medidas de eficiência, eletrificação e no conceito de “suficiência”, que implica reduzir atividades consideradas energeticamente intensivas e de menor valor social.
Por setores, o maior corte ocorreria nos transportes, com uma redução estimada de 72% no consumo energético. A indústria poderia reduzir 26% e os edifícios cerca de 20%, face aos níveis atuais.
A divulgação do estudo coincide com a preparação da Cimeira de Santa Marta, na Colômbia, onde vários países irão discutir estratégias para o abandono dos combustíveis fósseis.
Em comunicado, a Greenpeace apela ao Governo português para assumir um compromisso firme com a eliminação progressiva do petróleo e do gás até 2040, incluindo metas intermédias como a redução de 77% no consumo de gás e 68% no de petróleo até 2035.
Sistema 100% renovável
O modelo proposto prevê um sistema energético totalmente baseado em fontes renováveis até 2040, sem necessidade de recorrer a energia nuclear ou a tecnologias de captura e armazenamento de carbono. O relatório defende ainda que a transição pode ser feita sem comprometer a segurança do abastecimento elétrico.
O relatório indica também que esta abordagem reduz a pressão sobre recursos naturais, nomeadamente minerais críticos. No caso do lítio, a procura poderá aumentar até 4,7 vezes até 2040, mas ainda assim significativamente menos do que num cenário sem medidas de eficiência e reciclagem.
O cenário que integra medidas de suficiência prevê uma menor ocupação de solo para infraestruturas energéticas, poupando cerca de 120 mil hectares na Península Ibérica face a alternativas menos eficientes.
A organização sublinha ainda benefícios sociais, defendendo que a redução do consumo energético, aliada ao acesso universal à energia, pode contribuir para mitigar a pobreza energética e melhorar o conforto térmico das habitações.