Que impacto pode ter o El Niño em Portugal? O que dizem os especialistas

Analisámos os dados publicados e as inoformações mais recentes sobre a ligação entre o El Niño e o clima em Portugal.
Pedro Miguel Costa
Pedro Miguel Costa Editor-executivo
24 jun. 2026, 08:00

Os dados publicados nos últimos três meses mostram uma ideia bastante clara: o El Niño que se aproxima pode ser forte no plano global, mas em Portugal o efeito direto tende a ser fraco, indireto e difícil de prever.

O que mais pode mudar por cá é o quadro climático geral: mais calor no planeta, maior probabilidade de fenómenos extremos e algum agravamento de riscos sazonais em Portugal, sobretudo incêndios e temperaturas elevadas. E com tanta madeira por limpar, depois das tempestades de fevereiro, o risco, ainda que incerto, não deve ser encarado com um encolher de ombros.

 

O que dizem os especialistas

O IPMA tem sido a referência mais segura nesta análise. A sua leitura mais recente indica que a ligação entre o El Niño e o clima em Portugal é muito ténue, quase inexistente, o que significa que o fenómeno não serve para antecipar com rigor chuva ou calor no país. Ricardo Deus, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, reforça também que a Europa fica longe da zona onde o impacto é mais forte e que não se pode concluir, só por causa do El Niño, que Portugal vá ter um inverno mais chuvoso ou um verão mais quente.

Há, no entanto, uma nota importante: alguns meteorologistas admitem que a passagem para El Niño pode alterar padrões atmosféricos mais vastos e, por isso, mexer com a chuva e a temperatura na Península Ibérica. Mesmo assim, falam sempre de uma relação fraca, dependente de outros fatores, como o Atlântico e a circulação no continente europeu. Em resumo, a ciência local não aponta para um efeito forte e direto em Portugal, mas sim para uma influência limitada e pouco fiável.

 

O que pode acontecer cá

Para Portugal, o cenário mais provável é um impacto indireto, com possíveis efeitos no contexto climático do verão e do outono, mas sem sinais sólidos de uma alteração concreta e garantida na chuva ou na temperatura. O risco mais referido nas publicações recentes é o dos incêndios, porque um verão mais quente e seco pode deixar o território mais vulnerável. Mesmo assim, isso deve ser visto como um risco de fundo e não como uma previsão fechada causada apenas pelo El Niño.

Na prática, o que se pode dizer com segurança é que o fenómeno pode influenciar preços internacionais da energia e dos alimentos e isso pode acabar por tocar Portugal pela via económica. Já quanto ao tempo em si, a relação continua a ser fraca e pouco direta.

No cruzamento entre a imprensa e os especialistas locais, a conclusão é esta: o El Niño tem grande peso à escala mundial, mas Portugal fica na margem dos seus efeitos diretos. Onde a imprensa arrisca mais, os cientistas mostram prudência; onde os cientistas são mais técnicos, os jornais traduzem isso em riscos mais amplos para calor, fogos e custos.