Rios europeus em declínio acelerado exigem reforço da biodiversidade e melhor gestão
Um estudo do Laboratório Associado Terra alerta que a recuperação dos rios europeus passa por reforçar a biodiversidade e adaptar as intervenções a cada território, num contexto em que cerca de metade dos rios em Portugal precisa de melhorias.
O reforço da biodiversidade e a melhoria do funcionamento dos ecossistemas são prioridades fundamentais para recuperar os rios europeus em “declínio acelerado”, segundo um estudo internacional divulgado hoje pelo Laboratório Associado Terra.
Em comunicado, o Terra adianta que a definição de critérios claros para orientar intervenções é outra das prioridades destacadas no estudo, com contributos de especialistas de 45 países e publicado na revista Nature Communications Earth & Environment.
Tendo em conta que, na Europa, “mais de um milhão de barreiras fragmentam os cursos de água, cerca de 90% das planícies de inundação estão degradadas e menos de metade dos rios cumpre os objetivos da Diretiva-Quadro da Água” da União Europeia (UE), o estudo identifica 27 prioridades fundamentais para recuperar os ecossistemas fluviais.
Apresenta ainda “um roteiro prático que liga diretamente o conhecimento científico à tomada de decisão política, oferecendo orientações concretas para acelerar ações de restauro ecológico”.
“As estratégias de restauro não podem ser universais, vagas e destemporalizadas — têm de ser rapidamente implementadas e adaptadas aos contextos ecológicos, políticos e institucionais de cada região”, afirma a ecóloga fluvial Teresa Ferreira, presidente do Conselho de Coordenadores do Terra e uma dos 60 investigadores autores do estudo, citada no comunicado.
Em declarações à agência Lusa, a especialista disse que em Portugal “cerca de metade dos rios precisam de ser melhorados”, com diferentes graus de degradação, ou seja, existem “troços muito maus” e outros em que “com um pequeno esforço, conseguia-se recuperar”.
O resto pode ser classificado como tendo boa qualidade, sendo a classificação muito bom “mais rara”, acrescentou Teresa Ferreira.
“Está sobretudo nas zonas onde há menos populações humanas à volta e menos uso da bacia de drenagem (…). Portanto, seja zonas de montanha ou mais para o norte, desde que não seja o interior”.
No estudo internacional, os investigadores referem que uma das causas da perda de biodiversidade e que prejudica o funcionamento do ecossistema dos rios é a fragmentação.
“Estruturas como barragens, represas, diques e troços de rios canalizados não só interromperam os regimes de caudal natural ao longo dos cursos dos rios, como também alteraram o transporte de sedimentos”.
A degradação do habitat, as espécies exóticas invasoras e a poluição, “fatores exacerbados pelo atual contexto de alterações climáticas”, também explicam a perda da biodiversidade.
“Atualmente, mais de 63% dos rios do mundo com mais de 1.000 km de extensão não fluem livremente, e as populações globais de peixes migratórios de água doce diminuíram 81% nos últimos 50 anos”, assinala o estudo.
Sublinhando que “não existe uma solução única para restaurar ecossistemas degradados na Europa”, o estudo defende que as medidas sejam “adaptadas às condições ecológicas, políticas e sociais de cada região”, considerando este “um ponto (…) decisivo para o sucesso das intervenções”.
Segundo Teresa Ferreira, uma das questões que diferencia este estudo de outros é o facto de as 27 prioridades indicadas para recuperar os rios serem, “não só de ciências naturais, ecologias e aspetos mais relacionados com restauros, mas também de aspetos de governança, comunicação e instrumentos políticos”.
Os autores do trabalho destacam “a necessidade de integrar ciências naturais e sociais e de promover processos colaborativos entre investigadores, decisores políticos e comunidades locais” e propõem “ferramentas práticas que podem ajudar a transformar políticas europeias em resultados concretos no terreno”.
A investigação assinala que este é um momento “particularmente decisivo para a Europa”, dado que o Regulamento Restauro da Natureza da UE “exige a restauração de pelo menos 25.000 quilómetros de rios de fluxo livre até 2030”.
“Um dos problemas que temos neste momento em Portugal é a fragmentação das decisões relacionadas com a água”, referiu a ecóloga fluvial.
“Não temos instituto de água e, portanto, não temos estrutura de água propriamente dita (…). O planeamento está com a APA (Agência Portuguesa do Ambiente), mas a gestão setorial está noutros ministérios”, acrescentou, adiantando que tal torna “mais complicado” o trabalho a fazer no país.
O Laboratório Associado TERRA junta mais de 400 investigadores de cinco unidades de investigação das Universidades de Lisboa e Coimbra, sobre o tema da sustentabilidade no uso da terra, em termos do ecossistema e da população.