Projeto na Beira Interior testa a reutilização da lã para melhorar solos e combater a seca

O CIRCWOOL vai reutilizar a lã, transformando-a em produtos agrícolas que serão testados em solos de olivais e pastagens na Beira Interior, com o objetivo de melhorar a fertilidade do solo e aumentar a retenção de água.
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
31 jan. 2026, 08:00

A tosquia das ovelhas é indispensável para o bem-estar animal, mas a gestão da lã continua a ser um problema para muitos criadores. Embora o material mantenha valor enquanto matéria-prima, os baixos preços pagos aos produtores e os elevados custos da transformação dificultam a valorização económica da lã, levando frequentemente à acumulação ou desperdício. É por isso que na Beira Interior, região historicamente ligada à indústria dos lanifícios, prepara-se uma nova abordagem à utilização da lã, através de um projeto que aposta no sector agrícola. O CIRCWOOL - promover a circularidade da lã para um futuro regenerativo - surge com o objetivo promover a reutilização deste recurso. 

Entre os objetivos do projeto está o desenvolvimento de materiais que possam ser usados na fertilização dos solos, contribuindo para aumentar a capacidade de retenção de água em regiões marcadas pela escassez hídrica. Segundo o coordenador e investigador do projeto, Diego Arán, a abordagem do projeto passa por aplicar os produtos desenvolvidos nos solos agrícolas da região. “Os materiais criados a partir da lã serão avaliados em solos de olival e de pastagens da região, que enfrentam dificuldades ao nível da fertilidade e da disponibilidade hídrica”, sublinhou. 

O CIRCWOOL é um dos vencedores da 7.ª edição do concurso “Promove”, impulsionado pela Fundação La Caixa e pelo Banco Português de Investimento (BPI), em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O projeto será desenvolvido em Figueira de Castelo Rodrigo, além de outros pontos da Beira Interior. A iniciativa é coordenada pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, através do centro de investigação LEAF (Ligação entre Paisagem, Ambiente, Agricultura e Alimentação) e tem como parceiros o Município de Figueira de Castelo Rodrigo, a Associação de Criadores de Ruminantes da Guarda (ACRIGUARDA) e a Associação de Criadores de Ruminantes de Almeida (ACRIALMEIDA).

Além da componente técnica, o projeto analisa diferentes modelos de cooperação e formas de valorização da lã, com o objetivo de encontrar soluções práticas que possam ser implementadas pelos produtores e aplicadas de forma eficaz no setor agrícola.

Para o presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, Carlos Condesso, o projeto responde a uma dificuldade histórica do território. “A lã tornou-se um encargo financeiro para muitos criadores de gado. Este projeto procura encontrar uma solução prática para um problema que se arrasta há vários anos”, afirmou. O autarca acrescenta que a iniciativa reforça a ligação entre ciência e território e poderá contribuir para uma gestão mais eficiente da lã, ao mesmo tempo que apoia a melhoria dos solos agrícolas da região.

O CIRCWOOL entra agora na fase de desenvolvimento e ensaios no terreno, com a participação de produtores locais e entidades parceiras, permitindo testar na prática o potencial da lã como recurso agrícola e avaliar a viabilidade das soluções propostas antes de uma implementação mais alargada.