Tecnologia nacional que prevê inundações cresce em Portugal e expande-se para a Europa

Uma empresa tecnológica nacional está a ganhar dimensão e reconhecimento internacional com soluções que permitem prever cheias em tempo real. Depois de crescer em Portugal e no Brasil, a "startup" prepara-se agora para implementar projetos em cidades italianas.
Agência Lusa
Agência Lusa
17 mar. 2026, 19:37

Uma ‘startup’ portuguesa aposta na tecnologia para antecipar inundações e ajudar a proteger populações de fenómenos extremos, provocados pelas alterações climáticas, estando já presente em duas dezenas de municípios do continente e do Brasil, seguindo agora para Itália.

“Acabámos de fazer aqui uma visita técnica para começarmos um piloto com a cidade de Bolonha, e temos também já uma data combinada para começar em Milão. E então Bolonha e Milão vão ser as nossas primeiras cidades de expansão a nível europeu”, disse Tiago Marques.

Em declarações à Lusa, a partir da região no norte de Itália, o cofundador e diretor-executivo da Greenmetrics.ai, acrescentou que o projeto-piloto na cidade universitária italiana “vai ser instalado no início de abril”.

A ‘startup’ tecnológica portuguesa “surgiu há cerca de três anos”, fundada por três ex-alunos do Instituto Superior Técnico que decidiram montar uma empresa para se dedicar “à adaptação às alterações climáticas”, o “tema geral de tudo aquilo” que fazem.

A empresa começou com “alguns projetos no âmbito de gestão de água para irrigação em campos de golfe” e trabalhou com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) na monitorização de espécies protegidas, integrando o programa de conservação do lince ibérico, revelou Tiago Marques, que fundou a empresa com Manuel Bastos e Diogo Nunes.

Na sequência das cheias em Lisboa, em dezembro de 2022, a tecnologia para prevenir inundações em contexto urbano foi usada num projeto-piloto de monitorização dos túneis do centro da cidade - Entrecampos, Campo Grande e Campo Pequeno -, e em “pontos mais críticos” já mapeados como “de alto risco de inundação”.

A ‘startup’ passou a trabalhar também com uma dezena de municípios, incluindo Cascais, Oeiras, Loures e Odivelas (na Área Metropolitana de Lisboa), Maia e Porto (distrito do Porto), Guimarães (Braga), Torres Novas (Santarém), Tavira e Loulé (Faro).

A expansão internacional para o Brasil, em 2024, ocorreu em Eldorado do Sul, Lageado, Novo Hamburgo, Gravataí e Porto Alegre, no estado Rio Grande do Sul, uma das “regiões mais afetadas por inundações”, com mais de 180 mortos.

Já este mês, a empresa venceu um concurso para expandir o sistema aos restantes municípios que constituem a Área Metropolitana de Lisboa, aumentando para 24 as autarquias portuguesas abrangidos pelo sistema que permite aos serviços municipais posicionar equipas, cortar acessos e proteger infraestruturas antes de os cursos de água transbordarem.

As depressões Kristin, Leonardo e Marta, entre final de janeiro e meados de fevereiro, provocaram inundações urbanas em vários pontos do país, mas a resposta em vários concelhos foi marcada pela antecipação do risco.

“Através de uma rede de sensores inteligentes e de uma plataforma de análise de dados hidrológicos, o sistema envia alertas em tempo real diretamente para os responsáveis operacionais, permitindo decisões rápidas, fundamentadas e altamente precisas”, salientou a empresa.

Segundo o coordenador do Serviço Municipal de Proteção Civil (SMPC) da Maia, citado numa nota da empresa, fechou-se uma rua da cidade, de madrugada, ao observar-se “o nível de um dos sensores”, antevendo que ficaria inundada, situação confirmada horas depois, “sem qualquer estrago ou outras ocorrências”.

“O sistema demonstrou uma capacidade clara de antecipação, emitindo um primeiro alerta cerca de uma hora e 20 [minutos] antes da inundação do Largo Camões em Cascais, com base na subida do nível da Ribeira das Vinhas”, referiu o diretor da Cascais Ambiente, salientando que isso permitiu “aos lojistas e responsáveis tomar medidas preventivas, como fechar portas e proteger os espaços”.

No vizinho município de Oeiras, “o sensor de nível da Freiria, afluente da ribeira da Laje, permitiu detetar a subida da água antes do extravasamento, possibilitando a mobilização antecipada de equipas”.

Em Guimarães, a ponte de Nasceiros fica a 35 minutos do centro operacional do SMPC e o sistema permite encaminhar meios “sempre que o sensor emite o alerta”, situação idêntica em Torres Novas, com um viaduto “muito longe do centro operacional”, ou em Tavira, com a ponte de São Domingos.

A tecnologia, em Loures, também permite “coordenar tudo” sem “colocar operacionais adicionais na rua a fazer verificações constantes”, como no passadiço exposto ao Tejo, e a partilha de dados possibilita “anteciparem-se inundações em Odivelas através dos sensores instalados em Loures”, apontaram fontes dos dois municípios.

“Aquilo que nós dizemos sempre, um bocado na brincadeira, é que os nossos sensores não evitam que chova. Ou seja, vai continuar a chover” e “a haver eventos extremos, de precipitação altamente concentrada”, salientou Tiago Marques.

No entanto, insistiu, as cidades e as empresas devem “tomar medidas preventivas” para não serem surpreendidas e conseguirem “minimizar os impactos negativos”.