"Tem sido descurada a relação entre as catástrofes climáticas e a saúde"
O presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), Luís Campos, alertou para o aumento das catástrofes climáticas e considerou que tem sido descurada a relação que têm com a saúde.
Referindo-se às tempestades das últimas semanas no continente português e as subsequentes inundações, o responsável advertiu para os cuidados a ter e acrescentou: “Tem sido descurado na comunicação acerca destas inundações a relação entre estas catástrofes climáticas e a saúde”.
Num “podcast” da Agência Lusa, a ser divulgado no sábado, Luís Campos apontou que as tempestades recentes (que provocaram 18 mortes), “mercê da evolução pessimista que as alterações climáticas estão a ter”, vão ser cada vez mais intensas, duradouras e frequentes.
O que quer dizer “que temos de estar preparados para elas e temos de nos precaver”, disse, considerando que houve quanto às tempestades uma resposta “não planeada”.
“Temos de nos começar a preparar”, e tem de “haver planos de contingência para estas catástrofes”, apontou.
Luís Campos enfatizou a necessidade de se ligar e integrar mais a saúde com as alterações climáticas mas também com as alterações ambientais, “porque a questão da poluição atmosférica, química, sonora e luminosa é muito importante”.
E porque a saúde está no topo das prioridades dos portugueses, e as alterações do ambiente em lugar secundário, cabe aos profissionais do setor começar a explicar às pessoas que essas alterações já estão a ter impacto na saúde, disse.
Segundo responsável, “estima-se que uma em cada quatro mortes a nível global seja provocada por alterações ambientais”.
“Temos obrigação ética de nos envolver nesta luta, os profissionais de saúde. Temos de usar a nossa voz para dizer que não estamos perante um problema de ambientalistas ou de jovens radicais mas um problema que nos afeta a todos”, frisou.
E explicou depois que essa foi um das motivações para a criação do CPSA, em 2022, para reduzir o impacto na saúde das alterações ambientais, e reduzir o impacto ambiental do setor da saúde, que em Portugal representa 4,8% das emissões de gases com efeito de estufa.
“Sentimos que estamos perante o problema mais complexo do nosso futuro e para problemas complexos temos de ter soluções integradas”, referiu, justificando assim a grande diversidade de organizações que compõe o CPSA.
Luís Campos disse que as tempestades em Portugal tiveram impacto a nível das infraestruturas de saúde, dos hospitais aos centros de saúde, dos postos de colheita de análises aos centros de hemodiálise ou às farmácias. Com a depressão Kristin 195 ficaram sem eletricidade, apontou.
Mas tiveram impacto também, continuou, ao nível de acidentes, na falta de acesso a cuidados, no aumento de doenças infecciosas ou outras, como gastroenterites. E juntou as perturbações mentais, “que são gravíssimas” para quem perde a casa e os bens.
“Estima-se que no primeiro ano depois de uma inundação destas a taxa de suicídio suba cerca de 20%, e no segundo ano ainda é maior, 60%”, disse.
Por tudo isto, referiu o responsável, médico internista, antigo diretor dos Serviços de Medicina Interna e de Urgência do Hospital São Francisco Xavier, professor da Universidade Nova, “tem de haver também na saúde um plano de contingência adequado para dar resposta” especialmente a pessoas mais vulneráveis.
“Tem de haver monitorização do impacto tardio que as inundações têm na saúde das pessoas”, avisou.