André Gomes dedicou 25 anos ao setor farmacêutico, mas mudou de rumo para dar vida ao sonho de criança

André Gomes decidiu alimentar o "bichinho da madeira" e dar vida ao projeto Carved Wood. Agora, quer levar as suas obras para o mundo e chegar “até ao Japão”.
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
17 jun. 2026, 08:00

Foi aos 10 anos que André Gomes construiu pelas próprias mãos a primeira caixa de ferramentas em madeira. Em qualquer canto da casa, arranjava espaço para inventar uma oficina e por aí se entretinha horas a fio a magicar ideias e peças.

“Eu venho de uma família de artistas, o meu bisavô já trabalhava com madeiras e eu fui brincando com isto desde pequeno, fazendo algumas brincadeiras, sempre gostei de ter a minha pequena oficina com as ferramentas onde ia brincando”, admite o artista ao Conta Lá.

Mas o sonho de criança ficou na gaveta durante muitos anos. Isto porque, diz André Gomes, “a sociedade empurra para que estudemos outras coisas”, e acabou por se formar em Marketing e se dedicar à indústria farmacêutica.

“Eu estive 25 anos no setor farmacêutico e decidi mudar de vida porque não estava satisfeito com a vida que levava. Eu já mexia nas madeiras, e ali na altura do Covid, em 2020, criei a marca Carved Wood. Estava em casa, tinha mais tempo e fui investindo em alguma maquinaria na minha garagem e começando a fazer algumas peças”, recorda.

A partir daí, o “bichinho da madeira” saiu da gaveta. 

“Fui um pouco incentivado por alguns amigos para levar isto mais a sério, para criar uma página, para divulgar o que fazia, mas eu nunca achei que pudesse um dia fazer vida disto. Ia fazendo umas coisas para uns amigos, mas tudo no âmbito de amador, na desportiva”, admite o artista ao Conta Lá.

Já lá vão seis aos desde que iniciou o projeto, mas há quatro decidiu dar o salto e dedicar-se a 100% à Carved Wood. O lisboeta de 49 anos, a viver em Azeitão há oito, escolheu esta terra para instalar o seu atelier num ambiente idílico, longe da confusão da cidade, inserido numa quinta de vinhos da região.

“Fiz questão que fosse um espaço acolhedor, onde não seja aquele espaço que habitualmente as pessoas entram e veem tudo de pernas para o ar. Estou mais escondido do público, dentro da quinta privada dos vinhos da região da marca José Maria da Fonseca, com vista para a Serra da Arrábida, onde mais do que receber clientes quero discutir com eles os projetos, dialogar, a porta está sempre aberta”, explica.

Numa mudança de vida da qual o artista diz não se arrepender, o desafio maior é conseguir superar-se a cada dia.

“Sou muito perfecionista no que faço, os meus amigos dizem que eu namoro com as peças porque mesmo estando prontas ando ali de volta delas, a ver se encontro imperfeições que muitas vezes até podem nem existir mas na minha exigência acho que pode ficar sempre um pouco melhor. Mas isto é um trabalho manual, portanto às vezes falha ali um milímetro que é impercítivel aos olho mas que não deixo escapar e tento resolver”, confessa, notando a evolução nas peças produzidas, onde o espírito autodidata e algumas formações na área levam ao “orgulho cada vez maior naquilo que faço”. 

Além da técnica, também a matéria-prima faz a diferença. São as madeiras maciças o único elemento que entra na oficina de André Gomes.

“É tudo desafiante porque logo na compra das madeiras, vêm em bruto e não sei como é que me vão chegar, qual o estado, e consoante chegam é que decido como vou trabalhar nelas”, explana. 

E há três caminhos que André Gomes pode seguir.

“O meu trabalho assenta em três pilares: em peças que me pedem para desenvolver, sendo que eu fujo sempre do trabalho convencional, eu não me apresento como uma carpintaria, muitas vezes pedem peças e acabam por sair com outras, porque eu gosto de discutir os projetos com os clientes, e acabamos por chegar à conclusão que vamos fazer uma peça completamente diferente; depois peças de mobiliário, da minha autoria que coloco no mercado; e peças de arte, portanto, porque eu tenho esta componente também de criar peças que não são funcionais, são estéticas, como painéis de parede, quadros, sempre com o elemento madeira incluído”, explica.

Desde mesas, cadeiras, consolas, candeeiros, são peças de autor, com design próprio que têm tido adesão do público, com clientes a aparecerem até através do Chat GPT. “Foi talvez a maior surpresa que eu tive a nível de chegada de clientes”, confessa o artista.

“Isto é como em todos os mercados, há clientes que procuram preço, há clientes que procuram qualidade, há clientes que procuram design. Eu consigo aliar o design à qualidade. Interesso-me em trabalhar com um cliente que valoriza ter peças únicas”, expõe.

Com trabalhos que levam dias a serem concretizados, é da inspiração e dos estados de espírito que surgem muitas das criações, cujo impacto se traduz depois na reação final do cliente.

“Há um pedido que eu guardo, que me impactou mais. Não terá sido o trabalho mais impactante a nível estético, mas pela reação do cliente. Chegou-me uma vez uma cliente que tinha uma série de pirogravuras feitas pelo pai, que já tinha falecido, e queria transformar aquilo em algo. E fiz uma mesa de jantar, embuti o trabalho do pai e no dia em que fui entregar essa peça à cliente, estava lá a mãe, viúva do senhor, e começa a chorar, eu fiquei sem reação e mas percebi a importância que teve, o poder eternizar algo e estar sempre acompanhada pelo marido naquela peça”, conta André Gomes. 

Um caso que motiva o artista a querer continuar e com “toda uma checklist a cumprir”, por onde se inclui o objetivo de conseguir levar as suas obras além fronteiras e chegar, quem sabe, “até ao Japão”.