Colubrina do século XVI pode ser a primeira peça nos Açores classificada como Bem Móvel de Interesse Nacional

Uma colubrina de bronze de 1545, descoberta na Baía de Angra do Heroísmo, pode vir a ser o primeiro Bem Móvel de Interesse Nacional nos Açores. A peça, considerada de elevado valor histórico e arqueológico, integra o acervo do Museu de Angra do Heroísmo.
Agência Lusa
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14 abr. 2026, 20:26

Uma colubrina (canhão) de bronze do século XVI, encontrada na Baía de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, pode ser a primeira peça nos Açores classificada como Bem Móvel de Interesse Nacional.

“A ser classificada, e nós acreditamos que isso vai acontecer, é a primeira peça nos Açores a ser classificada e, portanto, deixa-nos muito orgulhosos”, afirmou, em declarações à Lusa, a diretora regional da Cultura dos Açores, Judite Parreira.

O procedimento de classificação da colubrina em bronze da autoria do mestre fundidor João Dias, datada de 1545, foi aberto hoje, segundo um despacho publicado em Diário da República.

O anúncio, emitido pela Museus e Monumentos de Portugal, refere que a proteção e valorização da peça que integra o acervo do Museu de Angra do Heroísmo “representam um valor cultural de significado relevante para a Nação”.

O procedimento com vista à classificação da colubrina como Património Móvel de Interesse Nacional tinha sido determinado por uma resolução do Conselho de Governo da Região Autónoma dos Açores, em dezembro de 2023, “em virtude do seu elevado valor histórico, arqueológico e artístico”.

Para a diretora regional da Cultura dos Açores, a classificação desta colubrina pode dar ainda maior projeção ao Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima do Museu de Angra do Heroísmo, um espaço “com muito interesse” e que integra “peças de relevo”.

“Claro que este processo vai levar algum tempo, porque agora vão ser pedidos pareceres a várias entidades, depois analisados, tem a sua tramitação, mas acreditamos que, no fim, a nossa colubrina seja classificada”, apontou.

Jaime Regalado, técnico superior do Museu de Angra do Heroísmo, defendeu, num artigo na revista National Geographic, que a colubrina, construída em 1545, pelo mestre fundidor João Dias, possa ser a “mais antiga boca-de-fogo de bronze fundida em Portugal”.

A colubrina foi retirada da Baía de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, em 07 de agosto de 1972, numa expedição internacional de arqueologia subaquática, liderada por Sidney Wignall.

“Foi feita uma intervenção de limpeza e de estabilização, mas ela estava em muito bom estado de conservação”, referiu a diretora regional da Cultura.

Judite Parreira destacou a “valorização que o Museu de Angra do Heroísmo faz das suas peças únicas” e lembrou o papel de Manuel Coelho Baptista de Lima, que dá hoje nome ao núcleo militar.

Baptista de Lima era diretor do Museu de Angra do Heroísmo quando foi realizada a expedição internacional que pretendia “localizar um navio de guerra britânico que tinha naufragado na costa sul da ilha” Terceira.

“Não conseguiram localizar o navio, mas encontraram um elevado número de objetos arqueológicos, entre os quais a nossa colubrina”, adiantou a diretora regional da Cultura.

Nessa altura, foi criada “a primeira equipa de arqueologia subaquática internacional”.

Desse trabalho resultou também “a primeira reserva arqueológica subaquática portuguesa”, na Baía de Angra do Heroísmo, em 1973.

Durante muito tempo, a colubrina de João Dias esteve no pátio do Museu de Angra do Heroísmo, no antigo Convento de São Francisco, mas agora pode ser vista no Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima, instalado no antigo Hospital Militar da Boa Nova.