Combate da Coca de Monção passa a integrar o Património Cultural Imaterial nacional
O confronto entre São Jorge e a Coca, uma figura mitológica semelhante a um dragão que todos os anos atrai milhares de pessoas a Monção durante as celebrações do Corpo de Deus, foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. O reconhecimento destaca o valor histórico, cultural e identitário de uma tradição secular que continua a mobilizar a comunidade local e a marcar a identidade do concelho minhoto.
A decisão foi aprovada pelo Património Cultural, Instituto Público, através de despacho de 27 de maio e publicada em Diário da República no início de junho. A inscrição reconhece a importância que o Combate da Coca mantém enquanto símbolo da população de Monção, bem como a sua estreita ligação às celebrações religiosas do Corpo de Deus.
Com referências históricas que remontam ao século XVI, esta é uma das tradições mais emblemáticas do Alto Minho. A celebração combina elementos religiosos e profanos através do combate simbólico entre São Jorge, representante do bem, e a Coca, uma criatura inspirada na figura do dragão e associada às forças do mal.
O momento mais aguardado das festividades acontece após a procissão do Corpo de Deus. Terminadas as celebrações religiosas, milhares de pessoas dirigem-se ao Largo do Souto, em Monção, para assistir ao combate. Segundo a tradição popular, a vitória de São Jorge anuncia um ano de boas colheitas, enquanto o triunfo da Coca é interpretado como um mau presságio para a agricultura. Com o crescimento da importância do vinho Alvarinho na região, a simbologia passou também a estar associada à qualidade das futuras colheitas deste produto emblemático do concelho.
A Coca é uma estrutura de grandes dimensões construída em madeira, tela e arame, movimentada por vários homens que permanecem no seu interior. Com cabeça móvel, rodas e uma aparência inspirada num dragão, a figura procura desafiar o cavaleiro que representa São Jorge durante o combate. Para vencer, o santo guerreiro tem de cortar uma das orelhas da Coca e atingir a criatura com a lança, seguindo um ritual que atravessa gerações.
Na fundamentação da decisão, o Património Cultural destaca não apenas a antiguidade da tradição, mas também o facto de continuar viva e transmitida entre gerações. O reconhecimento valoriza igualmente o trabalho desenvolvido ao longo dos anos pelo Município de Monção, pelo Arciprestado, pelas juntas de freguesia, associações locais e pela própria população na preservação desta manifestação cultural.
A candidatura foi apresentada pela Câmara Municipal de Monção, com base num processo de investigação e documentação realizado junto da comunidade local. O procedimento incluiu recolhas de testemunhos, documentação histórica e um período de consulta pública antes da aprovação final.
Com esta inscrição, o Combate da Coca junta-se ao conjunto de tradições reconhecidas pelo Estado português pelo seu contributo para a memória coletiva e para a preservação da diversidade cultural do país. Mais do que um espetáculo popular, continua a ser uma expressão viva da história, das crenças e da identidade de Monção.