Piranha: a loja de música portuense que mantém viva a cultura underground há três décadas

Fundada em 1995, a loja de música Piranha sobreviveu ao streaming, ao declínio do CD e às modas graças a uma comunidade fiel de amantes de música alternativa.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
23 mai. 2026, 08:00

Entre vinis, CDs e memórias de uma cidade que mudou, a loja Piranha continua a resistir no Porto como um raro templo da música alternativa. Fundada em 1995, no centro comercial Brasília, a loja atravessou o auge do CD, a queda da indústria musical física, a explosão do streaming e o regresso nostálgico do vinil, sempre fiel ao underground.

“Quando nós abrimos era o período áureo do CD. Durante, talvez, uns dez anos, foi uma loucura completa”, recorda Miguel Teixeira, proprietário da loja. “Não existia o digital nem o streaming. Havia outra mentalidade em relação ao consumo da música.”

Mas a história da Piranha começou antes das prateleiras cheias de discos raros, t-shirts de bandas e edições importadas. Miguel Teixeira vinha já de um percurso profundamente ligado à música alternativa portuense. Formado em Belas-Artes, cedo encontrou nas sonoridades pós-punk, góticas e industriais um universo próprio, muito antes de estes estilos chegarem ao grande público.

 

Antes da Piranha eram as rádios piratas e as fanzines 

Nos anos 80, numa época sem internet e em que descobrir música nova exigia verdadeira dedicação, Miguel começou por trocar gravações de concertos em cassete com outros entusiastas. “Era tudo muito boca a boca. Ou viajávamos, ou esperávamos por revistas estrangeiras que chegavam com um mês de atraso”, conta.

Mais tarde, juntou-se à Rádio Nova Era, ainda no tempo das rádios pirata. Primeiro num programa coletivo de sábado de manhã, depois, sozinho, em “O Arco do Cego”, um espaço dedicado à música alternativa que se manteve no ar durante mais de uma década.

“Eu não tinha voz para rádio nem grande jeito para apresentação”, admite, entre risos. “Mas tinha conhecimento e sobretudo muita vontade de mostrar bandas novas.”

Pelas emissões passaram nomes hoje incontornáveis como The Cure, The Sisters of Mercy ou The Chameleons, numa altura em que quase ninguém os conhecia em Portugal.

Quando as rádios piratas foram obrigadas a encerrar temporariamente, Miguel encontrou outra forma de continuar a divulgar música: criou a fanzine Peresgótika, publicação de culto no Porto alternativo dos anos 90, acompanhada por edições em cassete e, mais tarde, em CD.

Foi também aí que se deu conta da existência de um nicho de mercado. Através da fanzine, começou a distribuir discos difíceis de encontrar em Portugal, muitos deles vindos dos Estados Unidos, até surgir a ideia de abrir um espaço físico.

 


O nascimento e a resistência da Piranha

A loja nasceu inicialmente com o nome Carbono, em parceria com elementos ligados a uma loja lisboeta. “Éramos amantes da música, mas completamente ingénuos em relação ao negócio”, recorda. Ao fim de cerca de dois anos, os caminhos separaram-se e o espaço passou definitivamente a chamar-se Piranha.

Hoje, 30 anos depois, a loja mantém-se especializada em géneros como metal, gothic rock, post-punk e industrial. Entre os clássicos mais vendidos continuam nomes como Moonspell ou Cradle of Filth.

Mas a Piranha vive tanto da nostalgia como da descoberta. “Temos aqueles clientes old school, entre os 30 e os 50 anos, que regressam às bandas que ouviam nos anos 80. Mas também aparecem muitos miúdos de 20 anos à procura de coisas novas”, explica.

Ao contrário da ideia generalizada de que o vinil domina atualmente o mercado, Miguel garante que a realidade da loja é diferente. “O vinil teve um boom enorme, sobretudo na pandemia, mas tornou-se demasiado caro. O CD está outra vez a crescer e aqui continua a vender muito mais.”

Ainda assim, insiste que o formato é secundário. “O importante é a música, seja em vinil, CD ou cassete. O streaming é ótimo para descobrir coisas, mas não substitui a experiência física.”

Num tempo em que quase toda a música está à distância de um clique, a sobrevivência da Piranha passa precisamente por aquilo que a internet não consegue replicar: curadoria, conhecimento e comunidade.

“Nós não somos uma loja onde as pessoas entram só para passear. Quem vem aqui vem porque procura algo específico”, diz Miguel. “Muitas vezes nem sequer são clientes. Já são amigos.”

A própria envolvência da loja mudou drasticamente desde os anos 90. Miguel recorda uma galeria comercial cheia de lojas alternativas, livrarias independentes, espaços de roupa cyberpunk, tatuagens e piercings. “Havia uma movida completamente diferente”, lembra com nostalgia. “Hoje muita coisa desapareceu, mas sinto que esta zona voltou a melhorar nos últimos anos.”