Três grupos mantêm viva a tradição das Brincas de Carnaval em Évora
É carnaval, ninguém leva a mal. Uma expressão popular que retrata a vontade do povo viver o período livre de repressões e medo. Mas nem sempre foi assim. Na capital do Alentejo, o carnaval também é sinónimo de crítica social e política. As Brincas de Carnaval de Évora têm mais de um século de existência. Durante muitos anos deram voz aos lamentos e às críticas de um povo rural e pobre que vivia nas aldeias eborenses. E hoje são espelho da resistência de quem faz tudo para manter a cultura e as tradições vivas.
“São uma manifestação do património cultural e imaterial. Mas não sabemos exatamente quando terá começado. Há registos escritos desde 1921, em jornais e testemunhos de pessoas que escreveram para esses jornais, onde referiam que o avô ou o pai já participavam em Brincas. Isso remete-nos para o século XIX”, explicou Rui Arimateia, investigador do património cultural imaterial.
Dramatizar a insatisfação social não surgiu por acaso. Évora foi terra de grandes montes e quintas, de contrastes entre uma sociedade abastada pela riqueza da terra e aqueles que viviam do que dava, da pastorícia, da agricultura, do cultivo e do serviço em casa de senhoras. Durante gerações, a pobreza e a o analfabetismo eram comuns, e nesses contextos crescia a cultura e sabedoria populares, passado de pais para filhos, através da oralidade e dos convívios à braseira, nas cearas e no pastoreio. Amigos e familiares organizavam-se na quadra da passagem de ano, por essa altura combinavam que iriam fazer sair as Brincas.
“Em 1950, há registos de mestres, de pessoas que trabalharam nessas Brincas, nomeadamente no Monte da Pereira e na aldeia Torre de Coelheiros. Juntavam uma centena de trabalhadores na casa agrícola e nas noites de Inverno, ensaiavam as Brincas. Mas naquele tempo, grande parte daquela gente era analfabeta, por isso o Mestre tinha um fundamento decorado ou inventava e ia debitando décimas a cada um dos personagens e esse personagem fazia o mesmo. Isto acontecia até ao sábado de Carnaval, quando saíam com o fundamento completamente decorado e animavam os Montes e as aldeias vizinhas”, revelou o historiador.


As Brincas de Carnaval andavam sempre em redor do centro da cidade de Évora, porque dentro das muralhas não eram bem vistos nem bem recebidos. De acordo com os registos e o levamento realizado pelo próprio Rui Arimateia, a Guarda Nacional Republicana não deixava os grupos de Brincas entrar dentro da muralha da cidade devido ao tom crítico que a mensagem trazia. “As autoridades eram postas em causa fosse o padre, o político ou a polícia. E não podiam de maneira nenhuma entrar na cidade com estas mensagens”, revela.
De dezenas sobraram três grupos de Brincas de Carnaval
No passado, Évora contou com dezenas de grupos de Brincas de Carnaval. Dos bairros periféricos da cidade às aldeias, em todo o lado havia grupo de amigos que ano após ano animavam o período do Entrudo e, assim, contribuíam para a continuidade da tradição. Em 2026, sobram somente três grupos de Brincas: o Grupo de Brincas do Rancho Folclórico "Flor do Alto Alentejo", o Grupo de Brincas dos Canaviais e a Escolinha de Brincas da Casa do Povo dos Canaviais.
“O grupo das Brincas do Rancho Flor do Alto Alentejo aconteceu, em 2010, através de uma parceria com os antigos elementos das Brincas do bairro de Almeirim. Eles trouxeram-nos o conhecimento, o ensinamento, os instrumentos e os fundamentos do falecido Tio Raimundo”, contextualizou a atual presidente do grupo de Rancho, Cármen Vizinha. Atualmente, o grupo procura modernizar a tradição e abandonou as frases arcaicas e as referências nobiliárquicas dos fundamentos originais, para dar lugar a textos contemporâneos onde a crítica social procura estar adaptada ao presente político e social.
No início, as Brincas de Carnaval eram exclusivamente compostas por homens. As mulheres não eram bem-vindas aos grupos, apesar de desempenarem um papel fundamental. A elas competia a confeção de trajes e adereços, como explicou o investigador Rui Arimateia: “A participação das meninas, em termos sociais, não era permitida. As Brincas eram constituídas por rapazes e ponto final. Até porque eram, normalmente, camaradas que se juntavam nos bailes, nas tabernas e depois iam fazer as brincadeiras. A mulher não entrava diretamente. Mas estava presente na retaguarda. Era a mulher que fazia os vestidos, fazia as caracterizações, fazia uma quantidade de trabalhos para eles poderem brilhar quando saíssem à rua. A mulher começou a entrar nas Brincas depois do 25 de abril”.


No Rancho Folclórico “Flor do Alentejo” as Brincas sempre tiveram elementos femininos. Carmén Vizinha defende a introdução de modernismo e progresso na tradição. “A realidade é que na tradição da Brinca era só homens. Eles vestiam-se de mulher. Acho que hoje, isso não faz sentido. A mulher tem de estar, não pode ser excluída. Há uma forma mais harmoniosa de levar a Brinca para a frente”, defende.
O futuro das Brincas de Carnaval de Évora
Numa altura em que a cidade já está em contagem decrescente para se assumir como Capital da Cultura em 2027, o futuro das Brincas de Carnaval foi tema de discussão na autarquia, com a realização de uma sessão de debate sobre o movimento que contou com a presença dos grupos que ainda mantêm a tradição.
Para Rui Arimateia, o apoio institucional é fundamental para a continuidade desta tradição centenária. “As Brincas, tradicionalmente, não são grupos organizados. São grupos espontâneos, que se organizam na passagem de ano, combinam ir fazer Brincas e fazem-nas até ao Carnaval. No fim, acabou e cada um vai para o seu lado. Sem se saber se no ano seguinte, haverá ou não outras Brincas", confessa.
"Neste caso", acredita o historiador, "uma das maneiras das Brincas continuarem é convencer aqueles grupos aderirem a uma associação. É a única maneira. Neste caso, o Rancho Folclórico que ficou com a Brinca do Bairro de Almeirim. Os rapazes dos Canaviais têm dois apoios. Um é a Casa do Povo e o outro é a Junta de Freguesia. Enquanto tiverem estes apoios institucionais por trás e enquanto realmente houver aquele gosto de ir para a rua dizer décimas, as Brincas não vão morrer. Porque realmente, tanto uns como noutros ranchos ou Canaviais, os pais, os avós, os bisavós já faziam Brincas, portanto, aquilo está praticamente nos genes. Por isso, pode ser que daqui a 20 anos ainda haja alguma coisa”, aponta.