Instabilidade global dificulta "a recuperação das empresas afetadas pelas tempestades"
23 cêntimos de subida no gasóleo, 7,5 cêntimos na gasolina ou 22% de aumento no preço do gás natural. São notícias dos últimos dias e dão conta de uma realidade que já parece inescapável: podemos estar perante uma escalada de preços com impacto direto na capacidade produtiva das empresas portuguesas comor resultado dos acontecimentos no Médio Oriente. E se a isto juntarmos um tecido empresarial ainda a lidar como mau tempo das últimas semanas, sobretudo na zona de Leiria, o impacto pode ser de maior atraso na recuperação.
"Claro que sim". É como, sem floreados, o Diretor Executivo da NERLEI CCI – Associação Empresarial da Região de Leiria/Câmara de Comércio e Indústria, Henrique Carvalho, responde à pergunta do Conta Lá se a guerra vai abalar ainda mais as empresas da região. E elabora: "Depois de um choque interno violento" como foi a tempestade Kristin, "de que, sabemos, vão levar algum tempo para retomar a sua normalidade e competitividade, depararem-se com um choque externo que, para já, traz muita instabilidade vai com certeza dificultar a recuperação das empresas afetadas pelas tempestades em Portugal".
Muito dependente do gás natural para a sua produção, a indústria vidreira levanta preocupações não só pela relevância económica e social nas zonas mais afetas, mas também pelo rombo que já levou. E se é verdade que o facto de Portugal já não importar gás natural do Médio Oriente desde 2020 dá algum respaldo, importa referir que a subida de preços será transversal, seja qual for a origem da fonte energética.
"A indústria vidreira, quer pela sua dimensão, quer devido ao facto de trabalhar ininterruptamente, já está munida de sistemas de redundância, que lhe permite não sofrer impactos tão fortes, em circunstâncias como as que vivemos com a tempestade", tranquiliza Henrique Carvalho. "No entanto, não é de todo de desvalorizar os prejuízos que mesmo assim tiveram, designadamente decorrentes de menor produtividade e com elevados custos de energia", alerta.
Expeditos
Dificuldades que se alastram a outros sectores. Veja-se, por exemplo, o caso da cerâmica, com a Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristaleira (APICER) a afirmar que poderá ser muito complicado manter os mesmos preços de mercado. "Admito que com quatro semanas o setor consiga encaixar e aguentar sem transmitir ao mercado estes aumentos de preços e, portanto, toda a cadeia de valor vai encaixar este custo adicional. Ultrapassado esse tempo, é impossível que as empresas consigam manter os mesmos preços de mercado", alertou à Lusa o vice-presidente da APICER, Paulo Almeida, realçando que "a situação é mais grave" perante a concorrência de produtos vindos da China ou da Índia.
Perante este cenário, coloca-se a questão dos apoios estatais à produção. Para Henrique Carvalho, "mais importante do que saber se são ‘suficientes’" é essencial perceber se os apoios serão "expeditos". Consideram "que o Governo deve fazer aprovar e chegar os apoios que estão previstos para as empresas atingidas pelas tempestades, com a máxima urgência, para garantir que se mantêm postos de trabalho e clientes; e instar as seguradoras a agilizarem ao máximo, o pagamento de indeminizações às empresas". Mais tarde, "claramente deverão existir mecanismos reforçados de apoios a fundo perdido".
A hora é da resiliência na recuperação, com Henrique Carvalho a não ter dúvidas que o setor vidreiro "poderá ser dos primeiros a reerguer-se". Por outro lado é essencial passar a mensagem que "os problemas causados pelas tempestades vão ter consequências em empresas mais pequenas, menos estruturadas e de setores que ainda não estão devidamente cobertos pelas medidas já definidas, tal como, comércio e agricultura de média dimensão". As dificuldades chegaram para ficar.