Loja centenária de ferragens do Porto reinventou-se para atrair novos clientes
Fundada em 1910 por Bernardo Francisco Guimarães, a BFG permanece nas mãos da família. Alexandra Oliveira, sobrinha-neta do fundador e neta do segundo proprietário, gere atualmente a loja em sociedade com a mãe e a tia.
"O meu avô nasceu no Rio de Janeiro, mas veio viver para o Porto ainda jovem. Foi-se envolvendo no negócio dos tios, que não tinham filhos, e acabou por herdar a loja de ferragens", conta Alexandra Oliveira, sócia-gerente da BFG.
Durante décadas, a loja funcionou em estreita ligação com a vida familiar. Enquanto o rés-do-chão era ocupado pelo estabelecimento comercial, os pisos superiores serviam de habitação. Mais tarde, a gestão passou para a geração seguinte. Entre os oito filhos do proprietário, foi a filha mais velha, atual sócia da empresa e mãe de Alexandra Oliveira, quem assumiu um papel ativo na continuidade do negócio.
As memórias de infância da atual gerente estão intimamente ligadas à azáfama que caracterizava a loja. "Era uma loja com muitas ferragens, muitos funcionários, muitos clientes e muito movimento. Tenho memória de entrar aqui e encontrar sempre uma enorme atividade", recorda.
Ao contrário de muitas casas do setor concentradas na Rua da Almada, a BFG construiu uma identidade própria na Rua do Bom Jardim, apostando em ferragens distintas e, durante muitos anos, em artigos importados que ajudaram a diferenciá-la no mercado.
Reinventar para sobreviver
O início dos anos 2000 trouxe novos desafios ao comércio tradicional da Baixa do Porto. A desertificação do centro histórico, o envelhecimento da população residente e a concorrência de novas formas de consumo colocaram em causa a sustentabilidade de muitos negócios.
Foi nesse contexto que Alexandra Oliveira decidiu envolver-se a tempo inteiro na empresa familiar. Formada na área da publicidade e marketing, trabalhava num atelier de design gráfico e lecionava publicidade quando começou a apoiar a mãe na modernização da loja.
"Em 2008 decidi dedicar-me à reabilitação, reformulação e modernização da BFG", explica.
Uma das primeiras apostas foi a criação da loja online, numa altura em que o comércio eletrónico ainda dava os primeiros passos em Portugal. Paralelamente, a empresa começou a diversificar a oferta, introduzindo artigos de decoração que complementavam a atividade principal.
"Achámos que podíamos aligeirar o peso das ferragens. Começámos a introduzir cabides, peças decorativas em ferro e artigos que mantinham ligação à filosofia da loja", recorda.
A estratégia revelou-se acertada e permitiu atrair novos públicos, contribuindo para renovar a base de clientes.
Ferragens artesanais continuam a ser o coração do negócio
Apesar da diversificação, Alexandra Oliveira garante que a essência da BFG permanece inalterada.
"Manter o nosso negócio principal foi fundamental. As ferragens artesanais feitas em Portugal, em latão e personalizadas continuam a ser a nossa marca."
Num mercado cada vez mais dominado por grandes superfícies e produtos padronizados, a empresa optou por valorizar aquilo que a distingue: a produção artesanal e a capacidade de responder a pedidos específicos.
Entre os serviços prestados está a reprodução de peças antigas para móveis e portas, permitindo aos clientes recuperar património familiar ou restaurar elementos originais de edifícios.
"Se alguém tiver uma cómoda herdada da avó e partir um puxador, nós conseguimos fazer uma ou duas peças iguais às originais", exemplifica.
A valorização crescente da reabilitação de casas e do reaproveitamento de mobiliário tem contribuído para reforçar a procura por este tipo de soluções.
Decoração, móveis e um pátio transformado em cafetaria
Ao longo dos últimos anos, a BFG foi alargando o seu universo. Em 2013 criou uma secção dedicada a móveis em segunda mão, aproveitando ligações já existentes com antiquários e colecionadores.
Mais tarde, em setembro de 2017, nasceu o Pátio Bom Jardim, uma cafetaria instalada num antigo espaço de armazém situado nas traseiras da loja.
"Foi quase uma partilha daquele espaço com os nossos clientes. O pátio já existia e as pessoas perguntavam-nos muitas vezes porque não servíamos ali um café", explica Alexandra Oliveira.
Hoje, o percurso até à cafetaria obriga os visitantes a atravessar toda a loja, permitindo descobrir os diferentes produtos e ambientes que coexistem no mesmo espaço.
Novos clientes, a mesma proximidade
Se há duas décadas o perfil dos clientes era marcado sobretudo por moradores mais idosos da Baixa portuense, atualmente a realidade é bastante diferente.
"Em 2008, o nosso cliente típico tinha mais de 65 anos e conhecia a loja desde o tempo do meu avô. Hoje temos muitos jovens que querem recuperar casas, restaurar móveis ou reaproveitar peças antigas", afirma.
Apesar da renovação geracional, a ligação aos clientes históricos mantém-se intacta. Muitos continuam a entrar na loja pelo nome dos funcionários ou da família que há décadas os recebe.
As redes sociais e o site contribuíram igualmente para alargar a notoriedade da marca a outras regiões do país. Ainda assim, Alexandra Oliveira sublinha que o foco continua a estar no público nacional.
"Temos turistas e é muito bom recebê-los, mas o nosso principal público continua a ser o português."
Um negócio que acompanhou a transformação da cidade
Ao longo dos seus mais de 115 anos de história, a BFG assistiu às profundas transformações do comércio portuense.
Segundo Alexandra Oliveira, quando a loja foi fundada, a Baixa era o centro absoluto da atividade comercial da cidade. Com o passar das décadas, a chegada dos centros comerciais, das grandes superfícies e da concorrência internacional alterou profundamente os hábitos de consumo e colocou desafios acrescidos ao comércio tradicional.
"Muitas fábricas de ferragens tiveram de fechar e nós também tivemos de nos adaptar às mudanças", refere.
A capacidade de adaptação tem sido uma constante na história da empresa. Mais de um século depois da fundação, a BFG continua a conjugar tradição e inovação, mantendo vivas técnicas artesanais que resistem ao desaparecimento e encontrando novas formas de permanecer relevante numa cidade em permanente transformação.