Saúde mental no trabalho: ainda prevalece a ideia de que “escritório cheio é sinónimo de produtividade”
Durante anos, falar de saúde mental no trabalho era quase um tabu dentro das empresas. Hoje, o tema é visto de forma diferente e com mais importância do que antes. Mas, para Tânia Gaspar, ainda há um problema difícil de quebrar, que está relacionado com o facto de muitas chefias continuarem a medir produtividade pela presença física.
A investigadora foi uma das vozes em destaque no IV Congresso Internacional de Ambientes de Aprendizagem e Trabalho Saudáveis, que decorreu na semana passada, em Vila Nova de Gaia, reunindo representantes da Direção-Geral da Saúde, ACT, ordens profissionais e especialistas de diferentes setores.
E a mensagem deixada ao longo do encontro foi clara, segundo Tânia Gaspar: trabalhadores exaustos, desmotivados ou em sofrimento psicológico têm impacto direto na produtividade, nos acidentes de trabalho e até nos resultados financeiros das empresas.
“Quem trabalha, trabalha em todo o lado. Quem não trabalha pode estar o dia inteiro na empresa sem produzir”, afirma a professora da Universidade do Porto e coordenadora do último relatório do Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis.
Criado em 2019, ainda antes da pandemia, o laboratório começou focado no setor da saúde, acabando por acompanhar uma das maiores mudanças no mundo laboral das últimas décadas.
“Conseguimos avaliar os mesmos hospitais antes e depois da pandemia, com os mesmos indicadores, e verificámos que todos agravaram”, explicou ao Conta Lá.
O projeto cresceu rapidamente e hoje acompanha milhares de trabalhadores de diferentes áreas, analisando indicadores ligados à saúde mental, burnout, absentismo, riscos psicossociais, liderança, alimentação, sono ou satisfação profissional. Só este ano, os estudos envolveram mais de cinco mil trabalhadores.
“Isso mostra que as empresas estão mais despertas para este tema”, referiu a coordenadora do estudo. Ainda assim, acredita que existe um choque geracional cada vez mais evidente dentro das organizações.
De um lado, lideranças habituadas a modelos presenciais e de controlo. Do outro, trabalhadores mais novos que valorizam flexibilidade, autonomia e equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
“Há pessoas mais novas que preferem organizar o trabalho à sua maneira, desde que cumpram os objetivos. E muitas vezes fazem um excelente trabalho”, explicou.
A investigadora defende que o modelo híbrido continua a ser o mais equilibrado para a saúde mental dos trabalhadores: “O que a investigação mostra é que o híbrido é a melhor solução. Permite autonomia, reduz desgaste nas deslocações, mas mantém a ligação à equipa e às lideranças”.
"Empresas estão a recuar"
Ainda assim, admite que muitas empresas estão atualmente a recuar e a exigir mais dias presenciais: “Há uma questão de confiança. Muitas lideranças cresceram com a ideia de que trabalhar é estar fisicamente presente”.
Durante o congresso, um dos temas mais debatidos foi também a relação entre saúde psicológica e segurança no trabalho. Isto porque “uma pessoa cansada, exausta ou deprimida vai cometer mais erros”: “E isso pode ter consequências graves”, afirmou.
Outro dos grandes objetivos do laboratório passa pela criação de índices públicos de bem-estar organizacional, permitindo comparar empresas através da forma como tratam os trabalhadores.
“Num setor onde falta mão de obra, as pessoas vão escolher os sítios onde são melhor tratadas”, explicou Tânia Gaspar, confirmando que o estudo evidencia que nem sempre é o dinheiro que importa.
Depois da saúde, turismo, educação e jornalismo, o próximo observatório será dedicado à construção civil, uma área que, segundo Tânia Gaspar, enfrenta hoje enormes desafios ao nível da retenção de trabalhadores.
A investigadora revelou ainda que o laboratório pretende avançar para um novo observatório focado nas questões de género e nas diferenças entre homens e mulheres no contexto laboral: “As mulheres tendem mais a internalizar o sofrimento. Os homens tendem mais à agressividade ou ao consumo de substâncias. Mas o problema de base é o mesmo”.
Depois da adesão desta quarta edição, a organização admite agora alargar o congresso para dois dias em 2027 e abrir espaço para que empresas e profissionais apresentem boas práticas e projetos próprios. “Há empresas que querem mudar, mas muitas vezes não sabem por onde começar e o nosso trabalha serve para isso mesmo”, concluiu.