Exposição "O Extraordinário no Comum": duas décadas de investigação e o retrato de uma geração acompanhada desde o nascimento
Vinte anos depois do arranque da Geração XXI, o maior estudo de coorte realizado em Portugal, uma exposição na Casa Comum da Universidade do Porto convida o público a conhecer o percurso de milhares de jovens acompanhados desde o nascimento e a descobrir como duas décadas de investigação ajudaram a construir um retrato detalhado da infância, adolescência e entrada na vida adulta de uma geração.
Intitulada “O Extraordinário no Comum”, a mostra assinala os 20 anos da coorte Geração XXI, projeto coordenado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), que, desde 2005, acompanha milhares de participantes da Área Metropolitana do Porto, recolhendo informação sobre saúde, desenvolvimento, contexto familiar e condições sociais ao longo da vida.
Segundo Andreia Oliveira, investigadora do ISPUP, vogal da direção da instituição e coordenadora interina do Centro de Apoio à Investigação, a exposição procura mostrar “uma trajetória de 20 anos” e explicar, ao público, o conceito de coorte, destacando a singularidade de um trabalho que acompanha os mesmos participantes desde o nascimento.
“Estas crianças já têm hoje 21 anos e temos acompanhado toda esta trajetória de vida, o ambiente físico, social e contextual que as rodeia. Seguimos estas pessoas ao longo de vários períodos importantes para o seu desenvolvimento e que acabam por influenciar a sua saúde futura”, explica.
A exposição divide-se em dois momentos. Numa primeira fase, apresenta o contexto da Geração XXI, o trabalho desenvolvido pelo ISPUP e a importância deste tipo de investigação longitudinal. Numa segunda componente, instalada na Galeria Painel do Instituto de Saúde Pública, os visitantes poderão conhecer dados concretos, resultados científicos e algumas das descobertas mais relevantes produzidas ao longo de duas décadas.
Entre os conteúdos apresentados estão, também, testemunhos de participantes da coorte. Um dos exemplos é o de Beatriz, a primeira participante recrutada para o estudo, a 10 de abril de 2005, data que marcou o início do projeto.
Ao longo dos anos, a investigação desenvolvida pela Geração XXI centrou-se em diversas áreas, incluindo saúde materna e pré-natal, crescimento e desenvolvimento físico, saúde musculoesquelética e dor, alimentação e obesidade, doenças da infância, adversidade social e saúde ambiental. A exposição organiza-se precisamente em torno destas áreas temáticas, procurando traduzir para o público os resultados científicos de forma acessível.
Para Andreia Oliveira, um dos maiores desafios na preparação da mostra foi selecionar os dados e estudos mais representativos entre centenas de trabalhos científicos produzidos ao longo dos anos. “Tivemos de escolher aquilo que era mais comunicável para um público mais vasto. O objetivo foi encontrar exemplos que permitissem mostrar a relevância da investigação, sem perder o rigor científico”, refere.
A investigadora destaca, ainda, que a obesidade e as alterações cardiometabólicas associadas continuam a ser algumas das áreas onde existe atualmente maior volume de evidência científica, numa fase em que os participantes entram na idade adulta. O acompanhamento da coorte continuará nos próximos anos, permitindo estudar o surgimento de novas condições de saúde e compreender melhor os fatores que as influenciam.
A ideia que dá nome à exposição resume, segundo Andreia Oliveira, a essência do projeto. “Todos nós nascemos, crescemos e passamos por diferentes fases da vida. Isso é o comum. O extraordinário foi conseguirmos recolher, de forma sistemática e harmonizada, toda esta informação ao longo de duas décadas e transformá-la num recurso valioso para compreender como determinados fatores influenciam a saúde e o desenvolvimento das pessoas”, sublinha.
Além de divulgar o trabalho científico desenvolvido pelo ISPUP, a exposição pretende, também, reforçar a importância da investigação para a tomada de decisões em saúde pública. Para a investigadora, dar visibilidade à Geração XXI é fundamental para que os dados produzidos possam ser utilizados por investigadores, instituições e decisores políticos.
“Esperamos que o conhecimento gerado ao longo destes anos possa contribuir para mudar alguma coisa na sociedade. Temos informação que pode apoiar a tomada de decisão, mas é importante que ela chegue aos diferentes intervenientes e seja utilizada em benefício da população”, conclui.
A exposição estará patente na Casa Comum da Universidade do Porto e integra as comemorações dos 20 anos da Geração XXI, um dos mais importantes projetos de investigação em saúde pública realizados no país.