Entre a tradição e a tecnologia: como os Vinhos do Alentejo se preparam para o futuro

Num momento de transformação para o setor, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana reuniu, a 29 de maio, em Évora, produtores, investigadores e especialistas no evento Data+. O Conta Lá esteve presente para perceber de que forma os vinhos do Alentejo estão a recorrer aos dados e à tecnologia para enfrentar os desafios do futuro.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
08 jun. 2026, 08:00

O consumo mundial de vinho está a diminuir. As alterações climáticas obrigam os produtores a adaptar práticas que durante décadas permaneceram relativamente estáveis. A concorrência internacional intensifica-se e os consumidores procuram cada vez mais produtos diferenciados e de maior valor acrescentado. Perante este cenário, uma das regiões vitivinícolas mais importantes do país procura reinventar-se sem perder a sua identidade.

Foi precisamente esta reflexão que esteve no centro do evento Data+, promovido pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), que decorreu a 29 de maio, em Évora, e no qual o Conta Lá esteve presente. Durante a iniciativa foram apresentados o novo Plano Estratégico dos Vinhos do Alentejo para 2026-2031, uma nova plataforma de análise de dados para o setor vitivinícola e um estudo da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) sobre o impacto económico dos vinhos do Alentejo.

À primeira vista, os temas parecem distintos, mas todos procuraram responder à mesma pergunta: como garantir o futuro do vinho alentejano num mundo cada vez mais imprevisível?

Um dos motores económicos do país

Os números apresentados pela Nova SBE ajudam a perceber a dimensão dos Vinhos do Alentejo na economia portuguesa. Segundo o estudo, o setor gera cerca de 1,45 mil milhões de euros para a economia nacional, contribui com aproximadamente 673 milhões de euros para o Produto Interno Bruto (PIB) e sustenta mais de 20 mil postos de trabalho entre emprego direto, indireto e induzido.

Para João Duarte, professor associado da Nova SBE e um dos responsáveis pela investigação, o trabalho permitiu quantificar uma relevância que já era reconhecida, mas cuja dimensão nem sempre era totalmente compreendida.

Em entrevista ao Conta Lá, o investigador destacou que uma em cada seis garrafas produzidas em Portugal teve origem no Alentejo em 2023, sublinhando ainda os elevados níveis de produtividade e profissionalização encontrados na região.

Além do impacto direto, a atividade gera efeitos significativos noutras áreas da economia. “Percebemos que cada euro faturado na área do setor, ou produzido pelo setor, gera outros 2,75 no resto da economia, totalizando um multiplicador de 3,75”, afirmou. O investigador observou que este efeito resulta da forte ligação dos produtores a fornecedores, serviços especializados, logística, turismo e outras atividades económicas que beneficiam da dinâmica criada pelo vinho.

Mas os números positivos não escondem os desafios que se aproximam. João Duarte considera que o crescimento futuro dependerá cada vez menos do aumento da produção e mais da valorização do produto. “Temos de passar do paradigma do ‘bom e barato’ para o paradigma de que é realmente bom, com qualidade e, portanto, merece ser remunerado como tal”, defendeu, argumentando que o setor terá de responder a consumidores mais exigentes e a um mercado em transformação.

Produzir melhor e vender melhor

A ideia de criar mais valor está também no centro da estratégia definida pela CVRA para os próximos anos. Responsável pela certificação e promoção dos Vinhos do Alentejo, a entidade apresentou em Évora o novo Plano Estratégico para 2026-2031. A ambição é clara: reforçar a posição da região nos mercados internacionais e aumentar o valor gerado pelos vinhos alentejanos.

Luís Sequeira, presidente da CVRA, explicou aos jornalistas que a região pretende duplicar as exportações, passando dos atuais cerca de 20 milhões para 40 milhões de litros. Brasil, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos surgem entre os mercados prioritários desta estratégia.

Apesar da meta ambiciosa, o responsável fez questão de sublinhar que o objetivo não passa por produzir mais vinho. “O mundo consumidor já não está à procura de volume”, afirmou. Ao invés disso, a estratégia assenta na qualidade, na diferenciação e numa presença mais forte em segmentos de maior valor acrescentado.

A aposta inclui um reforço do investimento promocional em mercados externos, bem como iniciativas de formação destinadas aos agentes económicos da região. O objetivo é garantir que os produtores conseguem competir num contexto internacional cada vez mais exigente e afirmar o Alentejo como uma referência global.

Os números apresentados pela CVRA refletem essa ambição. A entidade pretende aproximar a contribuição do setor para o PIB dos 900 milhões de euros e gerar perto de dois mil milhões de euros de negócio induzido nos próximos anos.

Para Luís Sequeira, a competitividade da região não depende apenas da capacidade de exportação. Depende também daquilo que distingue o Alentejo de outras regiões produtoras. Os Vinhos de Talha, o montado, a gastronomia, a cultura e a identidade do território são elementos que considera fundamentais para construir uma proposta diferenciadora. O responsável frisou ainda que a inovação deve servir para reforçar essa singularidade e não para a substituir.

Quando os dados chegam à vinha

Num setor onde muitas decisões são tomadas com anos de antecedência, a informação tornou-se uma ferramenta cada vez mais valiosa. Foi precisamente essa necessidade que levou à criação da plataforma Data+.

Integrada no Plano Estratégico dos Vinhos do Alentejo, a ferramenta reúne mais de cinco milhões de dados relacionados com produção, comercialização, exportações, castas, sustentabilidade, preços médios, áreas de vinha e mercados nacionais e internacionais.

António Pisco, gestor do Gabinete de Estudos da CVRA e responsável pelo projeto, explicou ao Conta Lá que a informação já existia, mas que se encontrava dispersa por diferentes entidades e bases de dados.

“O que tentamos é reunir informação que existe, mas que está dispersa nos mais variadíssimos sítios”, esclareceu. Segundo o responsável, os produtores podiam consultar muitos destes dados de forma autónoma, mas eram obrigados a recorrer a múltiplas plataformas e organismos diferentes. O Data+ procura centralizar essa informação e disponibilizá-la de forma simples e intuitiva.

A plataforma inclui dados históricos desde 1989, ano em que surgiram os primeiros Vinhos do Alentejo certificados, permitindo acompanhar a evolução da região ao longo de mais de três décadas. Os utilizadores podem consultar informação detalhada, cruzando diferentes variáveis de forma praticamente imediata. Para António Pisco, o principal objetivo passa por apoiar a tomada de decisões. “Todas as decisões que nós tomamos, se forem baseadas em informação, têm uma maior probabilidade de sucesso”, sustentou.

Luís Sequeira acredita que o potencial da ferramenta vai ainda mais longe. De acordo com o presidente da CVRA, o nível de detalhe disponível permite identificar vinhas centenárias, a sua localização e as castas nelas existentes. “Este nível de detalhe, eu arriscaria dizer, que só no Alentejo é que é possível, neste momento, em todo o mundo”, salientou.

Adaptar a produção a um clima em mudança

A crescente aposta nos dados está também relacionada com outro dos grandes desafios da viticultura: as alterações climáticas. O aumento das temperaturas, os períodos prolongados de seca e a maior frequência de fenómenos extremos estão a obrigar os produtores a repensar estratégias e a adaptar práticas agrícolas que durante décadas permaneceram relativamente estáveis.

Óscar Gato, diretor técnico de vitivinicultura da Adega de Borba, explicou ao Conta Lá que muitos produtores estão a analisar, de forma mais aprofundada, o comportamento das diferentes castas e a sua capacidade de adaptação às condições futuras.

“Temos castas que sabemos que, sendo mais precoces, acabam por eventualmente sofrer um pouco mais com estas alterações. Por outro lado, temos outras variedades de uva que, sendo mais tardias no seu ciclo, acabam por ter um comportamento cultural melhor adaptado para os desafios do futuro”, observou.

Na Adega de Borba, os cerca de 230 associados trabalham, atualmente, com aproximadamente 40 variedades distintas de uva. Segundo o responsável, esta diversidade permite uma maior capacidade de adaptação perante um contexto climático cada vez mais exigente.

Neste processo, os dados assumem novamente um papel central. Para Óscar Gato, a possibilidade de consultar informação histórica permite compreender melhor a evolução da região e antecipar tendências futuras. “Há uma coisa que é real: são os dados históricos e esses não mudam”, afirmou. “Olhando para eles dá para prever um pouco melhor aquilo que possa acontecer no futuro.”

O desafio pode não estar na vinha

Apesar da crescente preocupação com as alterações climáticas, o maior desafio apontado por Óscar Gato não está necessariamente no campo. Quando questionado sobre as principais dificuldades enfrentadas pelo setor, o produtor deu uma resposta que sintetiza muitas das preocupações discutidas ao longo do evento. “O maior desafio talvez seja comercializar”, admitiu.

A explicação é simples. Embora a produção se mantenha relativamente estável, o consumo mundial de vinho tem vindo a diminuir. Isso significa que existe uma pressão crescente para encontrar novos mercados, criar valor e garantir que o vinho produzido consegue chegar ao consumidor.

É precisamente por essa razão que a estratégia apresentada pela CVRA combina exportação, tecnologia, sustentabilidade e inovação. O objetivo não passa apenas por produzir vinho, mas por garantir que esse vinho continua a encontrar espaço num mercado global cada vez mais competitivo.

Entre vinhas centenárias, castas tradicionais e milhões de dados disponíveis à distância de um clique, o Alentejo procura hoje equilibrar duas realidades aparentemente opostas. Por um lado, preservar a identidade que tornou os seus vinhos reconhecidos dentro e fora de Portugal. Por outro, adaptar-se a um futuro marcado pela mudança. 

Se durante décadas o setor viveu sobretudo da experiência transmitida entre gerações, agora procura complementar esse conhecimento com informação, tecnologia e capacidade de antecipação. No vinho, como em tantos outros setores, conhecer o passado pode ser a melhor forma de preparar o futuro.