Investigadores do Porto desenvolvem tecnologia capaz de combater deficiência de micronutrientes

São hoje mais de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo com falta de micronutrientes. Um problema que motivou uma investigação internacional liderada pela Universidade do Porto e que traz à luz do dia uma tecnologia genética que abre novas perspetivas para combater a desnutrição mundial através do sorgo, o quinto cereal mais produzido no mundo.
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
17 jun. 2026, 11:59

A equipa internacional, liderada pelos investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-BIOPOLIS) da Universidade do Porto e com a participação do Carlsberg Research Laboratory, na Dinamarca, baseou-se no estudo do sorgo, um cereal importante para a alimentação humana em várias regiões de África e da Ásia devido à sua elevada resistência à seca. 

Da análise do gene “SbFbZIP1”, responsável por regular a absorção de zinco pelas plantas, foi possível desenvolver uma nova abordagem genética capaz de triplicar a concentração de zinco nos grãos de sorgo.

Em comunicado, a Universidade do Porto explica que através da tecnologia FIND-IT (Fast Identification of Nucleotide variants by droplet Digital PCR), foi possível observar “uma alteração genética muito específica num sensor molecular que permite às plantas monitorizar a disponibilidade deste micronutriente no solo”

Na prática, esta modificação faz com que “o sensor permaneça permanentemente ativo, levando a planta a comportar-se como se estivesse constantemente em défice de zinco”, o que, como resultado, leva ao aumento da absorção e acumulação deste nutriente nos grãos.

“Os resultados revelaram que as novas variedades de sorgo acumulam cerca de três vezes mais zinco do que as variedades convencionais. Os grãos atingiram concentrações entre 50 e 60 miligramas por quilograma de peso seco, ultrapassando largamente tanto os níveis habitualmente observados na cultura como as metas internacionais de biofortificação”, refere a nota, que sublinha a inexistência de qualquer “impacto negativo no crescimento ou desenvolvimento das plantas, um dos principais desafios associados a estratégias de melhoramento genético”.

Numa nova perspetiva de combate à desnutrição mundial, os resultados da descoberta foram publicados na revista científica de referência New Phytologist e podem mesmo contribuir para combater a deficiência de micronutrientes que afeta mais de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo, com destaque para o zinco, uma das principais formas de malnutrição, com consequências para o sistema imunitário e desenvolvimento cognitivo.

Para a investigadora do CIBIO-BIOPOLIS e coordenadora do estudo, Ana Assunção, este resultado exemplifica “como a investigação fundamental em biologia de plantas, neste caso sobre a regulação molecular da nutrição vegetal, contribui para resolver problemas globais de nutrição humana de forma sustentável”.

Segundo a investigadora, esta abordagem poderá contribuir ao mesmo tempo para melhorar a segurança alimentar e promover a utilização mais eficiente dos nutrientes disponíveis nos solos, reduzindo a dependência de fertilizantes e aumentando a sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

Depois desta descoberta, a equipa de investigadores está neste momento a explorar a aplicação da mesma estratégia noutras espécies de elevada relevância alimentar, com o objetivo de desenvolver culturas mais nutritivas e resilientes para o futuro.