Projeto testa utilização do medronho na cosmética e no reaproveitamento de pão

Consórcio quer valorizar a fileira e desenvolver vários produtos alternativos ao que habitualmente se produz, assim como criar processos inovadores de conservação para prolongar a vida útil do fruto.
Ana Ribeiro Rodrigues
Ana Ribeiro Rodrigues Editora-executiva
20 fev. 2026, 08:00

O medronho, sobretudo associado à produção de licores e aguardentes, pode ganhar muitas outras utilizações às atualmente existentes. Como? Através do desenvolvimento de produtos alimentares não alcoólicos, de métodos de conservação do fruto fresco, ou até explorando as suas propriedades no universo da cosmética e farmacêutica. 

É essa a perspetiva de Christophe Espírito Santo, diretor científico da Associação Centro de Apoio Tecnológico Agroalimentar de Castelo Branco (CATAA), que integra um consórcio que está a fazer investigação para explorar essas vertentes. 

Para se ter uma ideia, o medronho é perecível e não existe investigação consolidada sobre a conservação em fresco. Mas o projeto UNEDO4ALL compromete-se encontrar processos de conservação pós-colheita, área em que estão a ser desenvolvidos estudos para prolongar a vida útil do fruto. Medronho desidratado, concentrados de sumo e fruta ou os preparados para pastelaria são algumas das possibilidades.

“Vamos estudar as melhores condições para conservar o medronho em fresco, tanto a aplicação de refrigeração, atmosferas controladas e outro tipo de tecnologias para conservar o medronho mais tempo, sem adição de químicos, porque neste momento não há nada”, adianta ao Conta Lá o diretor técnico-científico do CATAA.

Produtos alimentares

Por outro lado o objetivo passa por “valorizar os produtos alimentares à base de medronho”, salienta o responsável, que vê muito potencial numa fileira que tem vindo a aumentar e que tem muita expressão nas serras do interior da região centro do país. Christophe Espírito Santo dá como exemplo produtos a introduzir na pastelaria, “porque o medronho tem muitos açúcares e acaba por ser um substituto natural do açúcar”. 

“Iremos também desenvolver produtos fermentados à base de medronho, não alcoólicos, porque os alcoólicos são os mais conhecidos”, acrescenta o representante do CATAA, que tenciona também melhorar a produção da kombucha de medronho, kefir e apostar no kvass". No fundo é "uma forma de reduzir o desperdício alimentar, com recurso ao medronho".

O kvass, com origem nos países de leste, “é um tipo de pão que já não está em ótimas condições de textura, mas pode ser voltado a fermentar e reaproveitado, aplicando-lhe essa tecnologia”, elabora.

 

Possível utilização em produtos farmacêuticos e na cosmética

Christophe Espírito Santo destaca a versatilidade e o enorme potencial alimentar e funcional do medronho, apontando a intenção de trabalhar na extração de compostos bioativos, como antioxidantes e polifenóis. Ao fazer a seleção de novas estirpes fermentadoras da microbiota natural do fruto, permite desenvolver fermentados não alcoólicos diferenciados e tecnologicamente controlados. Uma forma de mudar a perceção que atualmente se tem do medronho. 

“É um fruto que pode ser utilizado para várias coisas, além do alimentar. Pode ser aplicado também na cosmética, em produtos farmacêuticos, porque é um fruto que tem muitos antioxidantes, tem muitos polifenóis e tem um valor económico que tem de ser aproveitado”, vinca o responsável do CATAA.  Esse não é o foco do projeto, mas vai ser também explorado. 

O responsável sublinha que, por ser uma cultura que retarda a progressão dos incêndios, cada vez há mais gente a produzir medronho, muito associado às serras do Algarve, mas com um volume de produção muito acentuado “na região centro”, nomeadamente em Oleiros ou na Sertã, onde já são exploradas outras utilizações do fruto além das tradicionais. 

Equipa multidisciplinar

Para o diretor técnico-científico do CATAA, localizado em Castelo Branco, todos estes caminhos a explorar podem ser “alternativas de rendimento para os agricultores”. 

O projeto é liderado pela Decorgel e envolve um consórcio multidisciplinar composto pelo CATAA, Instituto Politécnico de Leiria, Medronho & Canela – Inovação Alimentar e Nutricional, TAGUSVALLEY – Associação para a Promoção e Desenvolvimento do Tecnopolo do Vale do Tejo, SerQ – Centro de Inovação e Competências da Floresta, Timing Perfeito e Santos & Marçal SA, combinando competências científicas, tecnológicas e industriais.

O UNEDO4ALL teve início em 2025, prolonga-se até 2028 e representa um investimento de 1,1 milhões de euros, com cerca de 895 mil euros de fundos comunitários.