Universidade de Évora cria laboratório vivo para "deixar o território falar"
Desertificação, envelhecimento da população, desigualdades sociais e vulnerabilidade territorial estão entre os principais desafios que marcam o Alentejo. É a partir desta realidade que nasce o Living Lab Soc+, um novo Laboratório Vivo de Sociologia da Universidade de Évora que pretende aproximar a investigação académica das comunidades e dos problemas concretos do território.
A iniciativa envolve estudantes, docentes e instituições públicas e privadas num processo de diálogo e coprodução de conhecimento, com o objetivo de pensar soluções a partir da experiência vivida pelas comunidades locais.
“A proposta foi criar um living lab permanente, de base sociológica, para promover um espaço de diálogo, coaprendizagem e coprodução de conhecimento, permitindo que os desafios concretos enfrentados no terreno informem a investigação sociológica e que a investigação académica contribua para soluções inovadoras e socialmente relevantes”, começou por explicar a docente responsável pelo projeto, Rosalina Pisco Costa, ao Conta Lá.
Um projeto que nasce da reflexão sobre o ensino e a investigação
O Living Lab Soc+ surgiu no âmbito do processo de autoavaliação dos cursos de Sociologia da Universidade de Évora, realizado em 2025, no contexto da avaliação conduzida pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES).
Durante esse processo, as comissões dos cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento identificaram a necessidade de criar um espaço permanente que reforçasse a ligação entre a investigação sociológica e os desafios concretos do território. Mais do que um projeto académico tradicional, o laboratório pretende funcionar como um espaço de encontro entre diferentes atores sociais, onde conhecimento científico e experiência prática se cruzam.
Ainda assim, a responsável pelo projeto sublinha que a iniciativa não parte de uma agenda totalmente definida pela academia. “Na universidade, estamos muito habituados a pensar esses desafios a partir da literatura científica, das estatísticas disponíveis ou de estudos de diagnóstico. A ideia aqui é não partir de fora, mas de dentro, e deixar que seja o território a falar”, afirmou Rosalina Pisco Costa.
Uma nova forma de produzir conhecimento
Uma das principais diferenças entre o Living Lab Soc+ e projetos académicos mais tradicionais está na forma como o conhecimento é produzido. Ao invés de estudar a sociedade apenas como objeto de análise, o laboratório envolve diretamente diferentes atores sociais no processo de investigação e experimentação.
“O objetivo não é chegar imediatamente a soluções concretas, mas iniciar um processo de cocriação orientado para os desafios identificados”, elucidou a socióloga. Este processo poderá dar origem a diferentes tipos de iniciativas, desde projetos de investigação e intervenções no terreno até trabalhos académicos desenvolvidos no contexto universitário.
De referir ainda que os estudantes de Sociologia terão um papel central no funcionamento do laboratório. As sessões envolvem alunos de licenciatura, mestrado e doutoramento, que participam ativamente nas discussões e iniciativas promovidas.
“O objetivo é que a aprendizagem académica aconteça em interação direta com problemas sociais reais”, referiu Rosalina Pisco Costa. Segundo a investigadora, a participação dos estudantes traz também uma dimensão criativa importante para o laboratório, contribuindo para imaginar soluções de forma mais livre e inovadora.
Impacto esperado no território
Entre os principais impactos esperados está uma identificação mais precisa dos problemas sociais locais e a produção de diagnósticos mais ajustados à realidade das comunidades.
“Esperamos que o laboratório possa contribuir para uma identificação mais precisa dos problemas locais, para o desenvolvimento de soluções adaptadas ao território através da cocriação e para o reforço da participação e capacitação comunitária”, realçou Pisco Costa. De acordo com a socióloga, este tipo de processos pode também reforçar a confiança nas instituições e fortalecer a ligação entre universidade e território, afirmando o papel da academia como agente ativo no desenvolvimento local.
A primeira sessão do Living Lab Soc+ realizou-se a 20 de fevereiro, na Sala de Docentes da Universidade de Évora, no Colégio do Espírito Santo. O encontro contou com a participação de André Matoso e Dimas Ferro, que apresentaram o contexto e várias possibilidades de colaboração entre a Universidade de Évora e diferentes entidades, entre elas a EDIA - Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, o Museu da Luz e o Parque de Natureza de Noudar.
As próximas sessões deverão continuar a explorar parcerias e a discutir desafios que atravessam o território, incluindo questões sociais e empresariais. Ao aproximar investigação, estudantes e comunidades, o Living Lab Soc+ procura transformar os desafios sociais do Alentejo em matéria de reflexão, participação e experimentação coletiva, reforçando o papel da universidade na construção de respostas para os problemas reais do território.