ONG contestam no Tribunal de Justiça da UE redução da proteção do lobo

Mais de 40 organizações defensoras da vida animal apresentaram recursos no Tribunal de Justiça da União Europeia contra a decisão de reduzir o estatuto do lobo de “muito protegido” para “protegido”, alertando para um enfraquecimento das regras de conservação da espécie na Europa.

Agência Lusa
Agência Lusa
15 abr. 2026, 19:01

Mais de 40 organizações defensoras da vida animal denunciaram hoje o enfraquecimento da proteção dos lobos na Europa e apresentaram três recursos ao Tribunal de Justiça da União Europeia para contestar a redução do estatuto do lobo.

As organizações não governamentais (ONG) criticaram, em comunicado, a redução do estatuto do lobo de “muito protegido” para “protegido” na União Europeia (UE), que o Parlamento Europeu aprovou em maio do ano passado, com 371 votos a favor, 162 contra e 37 abstenções.

“Estes recursos podem levar à reversão da recente decisão de reclassificar o lobo”, estimam as ONG.

Para as organizações, a legislação da União Europeia não deve ser construída sobre “um vazio científico e jurídico” e reformulada para justificar o abate ou maus-tratos a animais selvagens.

Segundo as ONG as mortes de ovelhas e cabritos provocadas por lobos na UE “são estimadas em apenas 0,06 e 0,07% da população total”.

O novo estatuto - que tinha já luz verde do Conselho da UE, onde estão representados os Estados-membros - permite a gestão da população de lobos, nomeadamente através da caça.

“A perseguição humana é já a principal causa de morte de milhares de lobos todos os anos na Europa”, segundo a nota.

As ONG mencionaram que a redução do estatuto leva a mais liberdade para matar os lobos e normaliza a violência contra a vida selvagem ao expandir o uso rotineiro de armas de fogo como as principais ferramentas.

As organizações avisam que, apesar do estatuto, os países ainda podem pôr um fim às quotas de abate e cumprir na mesma “as normas da UE e internacionais”, dando o exemplo de Portugal, da República Checa, a Polónia, a Hungria.

Em Portugal, desde de 2025, está em vigor o Programa Alcateia 2025-2035, que tem como objetivos estratégicos garantir condições ecológicas mais favoráveis à conservação do lobo, melhorar a coexistência com as atividades humanas, reforçar a monitorização e conhecimento, e sensibilizar para a conservação.

Para as organizações, as medidas mais eficazes para proteger o gado incluem vedações elétricas em pastagens já vedadas, a recolha noturna do gado em recintos à prova de carnívoros e a utilização de pastores com cães de guarda em pastagens abertas.

“O que é urgentemente necessário agora é uma mudança de políticas que reflita as expectativas do público. Não à desclassificação [do estatuto], quota zero para a matança de lobos, e a punição da caça ilegal devem tornar-se a prioridade”, acrescentam as organizações.

As ONGs apelam ainda à total transparência quanto à influência de interesses privados não divulgados na tomada de decisões da UE, alertando para o desmantelamento de leis de proteção da “natureza antigas e eficazes”, ao mesmo tempo que são promovidas “narrativas enganadoras de coexistência [entre espécies]”.

A União Europeia defendeu que a alteração do estatuto do lobo serve para alinhar a categoria da espécie na UE com o estabelecido na Convenção de Berna para Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats naturais na Europa.

A questão em relação à alteração do estatuto começou em setembro de 2023, quando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu a redução da proteção da espécie após a morte do seu pónei, alegadamente devido a um ataque de lobo.

Em dezembro de 2023, a Comissão Europeia propôs a redução da proteção da espécie ao abrigo da Convenção de Berna. Apenas um ano antes, a UE tinha rejeitado a mesma proposta por falta de base científica.

Segundo dados da Comissão Europeia de 2025, há mais de 20.000 lobos na Europa e as suas populações e áreas de distribuição estão a aumentar, embora as ONG indiquem que, segundo a ciência, a taxa de crescimento das populações de lobos não aumenta indefinidamente e que a taxa reprodutiva aproxima-se de zero.