Seguro pede coragem para "escolhas difíceis, sem ceder ao populismo” e apela ao compromisso em “tempos de trincheiras”

O primeiro discurso de António José Seguro como Presidente da República nas comemorações do 10 de Junho ficou marcado pelo apelo aos consensos e a um "compromisso" de "longo prazo", numa intervenção que abordou também a conjetura internacional.
Sofia Santana
Sofia Santana Editora Digital
10 jun. 2026, 13:32

António José Seguro pediu “coragem” para se “fazer escolhas difíceis, sem ceder ao populismo” e apelou à defesa do “interesse de longo prazo, mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo”. O apelo foi deixado no primeiro discurso como Presidente da República nas comemorações do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, esta terça-feira, em Angra do Heroísmo.

O chefe de Estado sublinhou que vivemos “tempos de trincheiras”, que “criam o impulso de fechar fileiras” e “erguer muros”, aproveitando para deixar alguns recados aos partidos. Seguro apelou ao diálogo, pedindo às forças políticas “um compromisso com a tolerância para quem pensa de forma diferente, para quem tem origens distintas, religiões e credos distintos, por forma a que Portugal seja para todos um chão comum”.

Por outro lado, o Presidente da República exigiu “ambição” e políticas que respondam aos problemas do país - políticas que permitam fixar talento, aumentar os salários e tornar a habitação mais acessível, particularmente para os jovens.

“Portugal não pode cair no fatalismo, nem ficar à espera de milagres. (…) Portugal precisa de políticas que fixem talento em vez de o exportar, de salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses, de um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram, de um estado que simplifique em vez de complicar, que antecipe em vez de reagir, que planeie além do mandato em vez de gerir apenas a urgência do presente”, vincou.  

"O problema não é o talento, nunca foi. O problema é que esse talento parte para outros destinos porque não encontra em Portugal as condições para crescer. O que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração, a habitação é praticamente inacessível e esgota qualquer orçamento familiar", notou.

Em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, o Presidente da República destacou também o papel da autonomia dos Açores e da Madeira na unidade nacional: "Portugal é maior quando é plural, a unidade nacional não se faz pela uniformidade, mas pela reconhecimento das diferenças. Um país capaz de gerir a sua diversidade interna tem mais capacidade para enfrentar os desafios que vêm de fora", afirmou.

Lembrou, no entanto, "o que ficou por fazer" em "50 anos de autonomia", realçando as "assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas". 

"Cinquenta anos de autonomia revelam também o que ficou por fazer: as assimetrias persistentes entre o continente e as regiões autónomas e o custo real da insularidade que continua a pesar sobre famílias e empresas e a necessidade de um modelo de financiamento que reflita com mais precisão e mais justiça as especificidades destas regiões", frisou.

Discursando, como notou, no "coração do Atlântico", "num ponto estratégico de relação entre a Europa e o continente americano", "entre as grandes rotas marinhas e aéreas que estruturam a ordem global", Seguro fez questão de abordar a situação geopolítica mundial e de reiterar "que a autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica, é o seu complemento natural". 

"O presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança que tem na NATO o seu pilar fundamental. E o Atlântico faz parte da autonomia estratégica europeia, do ponto de vista político, económico, energético e, claro, de segurança e defesa. Autonomia não significa isolamento, significa liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando relações bilaterais com os nossos aliados", afirmou.

O Presidente da República defendeu ainda que "a garantia de segurança dos países europeus só é possível em articulação com os nosso aliados, numa relação de equilíbrio e reciprocidade, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a paz, a liberdade, os direitos humanos e o multilateralismo".