Trabalhadores da Agência Lusa em greve: "Não é só a Lusa que está em risco, é o jornalismo no seu todo"

Trabalhadores estão contra os estatutos aprovados em janeiro que consideram colocar em risco a independência e a integridade da única agência noticiosa em Portugal. A paralisação será marcada por uma manifestação em frente às escadas da Assembleia da República no dia em que vários projetos lei sobre estas mudanças estarão em discussão.
Tiago Oliveira Jornalista
20 mai. 2026, 08:00

A favor da autonomia da Lusa e contra a transformação da agência numa mera caixa de ressonância do Governo que estiver em funções, os trabalhadores da única agência noticiosa em Portugal convocaram uma greve para hoje como forma de protesto contra os novos estatutos que consideram colocar em causa a sua liberdade editorial

"Somos contra os atuais estatutos que netraram em vigor em janeiro e defendamos a sua revisão", explica a jornalista e delegada sindical Susana Venceslau, para quem estas mudanças "abrem a porta a um risco grande de governamentalização da agência". O objetivo traçado é o de "uma agência mesmo independente, que faça um trabalho livre e isento".

Aprovados em janeiro, os estatutos incluem alterações como a nomeação direta de três administradores por parte do poder político, assim como um controlo alargado das decisões e nomes propostos para o conselho de administração. Um leque de decisões que vai mesmo, consideram, contra a legislação europeia em vigor e que vai motivar, na próxima semana, uma queixa nas instâncias comunitárias.

"É uma questão ideoológica de certa forma", considera Susana Venceslau, até porque "estamos a falar de uns estatutos sobre os quais a empresa tem que trabalhar e que passam a condicionar a agência". Entre os impactos que apontam, encontra-se a necessidade de a agência passar a ser "obrigada a ir prestar contas à Assembleia da Républica", o que implica "logo uma autocensura". Na opinião da jornalista, se alguém sabe que vai ser "chamado a explicar", isso tem logo influência no que escreve.

"O jornalismo tem que ter condições de independência, de todos os poderes", reforça, e estes estatutos "colocam em risco a agência como a conhecemos". Aliás, a mensagem não podia ser mais direta: "Não é só a Lusa que está em risco, é o jornalismo no seu todo".

Vozes que se calam

Uma urgência que tem sido acolhida com alguma intransigência pelo ministro da tutela, António Leitão Amaro, que "tem sido bastante claro na intenção de não alterar os estatutos", mantendo apenas abertura para fazer o balanço das alterações no prazo de um ano.

Por isso o dia escolhido para a greve e manifestação à frente das escadas da Assembleia da República ser hoje, 20 de maio, em que vão ser discutidos projetos de vários partidos sobre estas mudanças. O objetivo é "chamar a atenção para o que se está a passar e levar a que alguns dos projetos sejam aprovados e desçam à especialidade", algo que consideream, explica Susana Venceslau, "muito importante, para que a discussão continue".

A delegada sindical espera uma "adesão grande", com "colegas que vêm de vários pontos do país, fora de Lisboa", e que ajude a perceber a importância do trabalho da agência que muitas vezes passa despercebido ao grande público. "Se o nosso trabalho ficar resgatado, os que vêm a seguir não têm com que trabalhar", garante. "São vozes que se calam" para só falarem "as vozes" autorizadas. As "pessoas não têm consciência disso".

Como responsável por uma parte muito relevante das notícias replicadas por sistes noticiosos de todo o país, Susana Venceslau não tem dúvidas que "ao colocare as mãos em nós [Agência Lusa], colocam nos outros". Ou seja, toda a gente devia estar solidária com o que se passa aqui.