“Deliciar-se com as cores e os intermináveis tapetes”: festa do Santo Cristo enche ruas de Ponta Delgada de flores

Apesar da chuva, a tradição voltou a cumprir-se em Ponta Delgada, onde centenas de moradores se mobilizaram para criar quilómetros de tapetes de flores na passagem do Santo Cristo. As ruas da cidade açoriana encheram-se de cor, devoção e visitantes, ainda que em menor número devido ao mau tempo.
Agência Lusa
Agência Lusa
10 mai. 2026, 13:48

Apesar da chuva que se faz sentir em Ponta Delgada, a tradição resistiu e centenas de moradores mobilizaram-se nas ruas para criaram quilómetros de tapetes de flores para homenagear o Santo Cristo à sua passagem.

Os tapetes são constituídos, além das flores naturais, por verdura e aparas de madeira colorida, e despertam a curiosidade de locais, emigrantes e turistas que se passeiam pelas ruas de Ponta Delgada, embora este ano em menor número devido às condições climatéricas adversas.

Devido à chuva e vento, a tradicional missa campal foi transferida para a Igreja de São José, e muitos fiéis ficaram do lado de fora do templo para participarem da homilia, protegidos por guarda-chuvas e pelas árvores do Campo São Francisco.

Mas houve quem resistisse à chuva, como José Portela, oriundo de Braga, que manifesta o seu “encanto e deslumbramento pela sua beleza” dos tapetes por onde passará na tarde deste domingo a procissão do Santo Cristo.

Manuel Vigário, natural da ilha Terceira, refere que sempre que pode não falha uma deslocação matinal à baixa de Ponta Delgada, no domingo das festividades, para se “deliciar com as cores e os intermináveis tapetes de flores”.

Já o emigrante do Canadá Artur Araújo, que viveu na cidade de Ponta Delgada, refere que vem todos os anos aos Açores “numa jornada de fé e de amizade” para rever velhos amigos, e fazer uma visita às ruas da baixa de Ponta Delgada ornamentadas “faz parte do itinerário”.

Além dos tapetes de flores, também as varandas são ornamentadas, havendo, em especial, uma moradia que concentra todas as atenções, pela riqueza da sua decoração, sendo propriedade da família do antigo provedor da Irmandade do Santo Cristo, Costa Santos, que mantém a tradição.

Ana Costa Santos, filha do antigo provedor, refere que a tradição de ornamentar as varandas da casa começou com a sua avó materna, tendo depois transitado para os pais essa responsabilidade.

Numa primeira fase, as flores eram produzidas num terreno contíguo à casa moradia da família, mas com a falta de mão-de-obra e o baixar da produção, o antigo provedor começou a importar as flores, ficando a ornamentação a cargo da esposa, sendo este domingo responsabilidade de uma das filhas.

Ana Costa Santos explica que “as quatro varandas são ornamentadas por 600 flores” e “há muitos curiosos que se dirigem especificamente à habitação para observar a sua beleza”.

Mas além dos tapetes e varandas das ruas de Ponta Delgada, vários fiéis oferecem milhares de flores ao Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, como forma de agradecimento e promessa, sendo estas depois tratadas por voluntárias para ornamentar a igreja e a imagem do “Ecce Homo”.

Segundo o jornalista e especialista em teologia Santos Narciso, as flores começaram a surgir “nas décadas de 40 e 50 do século XX, junto à Junta Geral de Ponta Delgada”, tendo depois o exemplo sido replicado pelo antigo provedor da Irmandade Costa Santos, na sua habitação da Rua do Colégio, “multiplicando-se por várias vias da cidade” e assumindo a dimensão que tem este domingo.

Santos Narciso salvaguarda que desde 2018, graças à mobilização do empresário Juvenal Martins, que lidera um grupo de voluntários, as vias que circundam o Campo São Francisco, por onde passa a mudança da imagem, passaram a ser também ornamentadas por cerca de 25 mil gerberas amarelas e brancas, e duas mil rosas que são oferecidas aos devotos.

Além dos tapetes de flores, cerca de 130 mil lâmpadas e uma equipa de 40 colaboradores, iluminam o Convento da Esperança e o Campo São Francisco.

As festas do Santo Cristo dos Milagres constituem a maior festividade e celebração religiosa realizada nos Açores, tendo sido Madre Teresa da Anunciada, nos finais do século XVII, a potenciar o culto à volta da imagem do “Ecce Homo”, na sequência de uma profunda crise sísmica que atingiu a ilha de São Miguel.