Cinco concelhos, uma estrada e algumas perguntas sobre o interior do país. Uma viagem pela Nacional 2
Durante uma semana, os debates do Conta Lá que tive o privilégio de moderar em cinco dos concelhos atravessados pela mítica Estrada Nacional 2 deram voz a autarcas, empresários, associações, especialistas e, acima de tudo, às pessoas que fazem destes territórios o seu lugar. Pessoas que escolheram ficar quando tantos partiram. Pessoas que resistem às dificuldades do interior com uma notável capacidade de adaptação. Pessoas que continuam a acreditar que estas terras não são apenas um ponto de passagem, mas um espaço de oportunidades e esperança.
Góis, Pedrógão Grande, Sertã, Vila de Rei e Sardoal são cinco realidades distintas, mas marcadas por desafios comuns: assegurar o futuro, valorizar o potencial de cada concelho e contrariar uma tendência persistente de perda de população, investimento e serviços.
Em Góis, o silêncio é o primeiro impacto. Não um silêncio de abandono, mas o silêncio próprio das serras, apenas interrompido pelo som da natureza, do rio que corre em direção ás praias fluviais, da bicharada invisível junto ás aldeias de xisto - e, em agosto, pelo das motos, já agora!
Góis é um bom exemplo de capacidade de mobilização, de criar e manter uma experiência única no interior do país. Todos os anos, a Concentração Internacional de Motos de Góis transforma por completo o concelho, atraindo milhares de participantes portugueses e estrangeiros e projetando o nome da vila muito para lá das fronteiras da região.
Passando a Pedrógão Grande, é impossível falar do presente sem que a memória coletiva nos conduza a 2017. Os incêndios desse verão deixaram cicatrizes que vão muito além da paisagem. Persistem nas histórias das famílias que viveram a tragédia, e das forças vivas do concelho que continuam empenhadas na reconstrução e prevenção. Estão presentes na forma como hoje se pensa e gere a floresta, mas também na relação emocional que a população mantém com o território, tentado superar a dor, alavancando projetos locais, baseados por exemplo na gastronomia, ou no turismo de natureza
A pergunta que fica, no entanto, para reflexão nacional é clara: terá o país aprendido verdadeiramente as lições daquele verão?
Na Sertã, o rio Zêzere é elemento central da paisagem e da economia. Ali, a água é muito mais do que um recurso natural; é um motor de desenvolvimento. O turismo, as atividades náuticas, a agricultura e até a identidade local giram em torno deste património.
Os desafios aqui, são os habituais. As empresas procuram crescer e inovar, há setores tradicionais a criar riqueza, mas mantêm-se as dificuldades na atração de mão-de-obra qualificada e na fixação de população.
Existe qualidade de vida e oportunidades, mas falta massa crítica.
Chegar a Vila de Rei traduz-se num significado especial. Não apenas por se alcançar o centro geodésico de Portugal, assinalado pelo marco da Melriça, mas também porque este território evidencia um paradoxo que atravessa grande parte do interior: estar no centro do mapa nem sempre significa estar no centro das decisões.
Vila de Rei tem sabido aproveitar a visibilidade proporcionada pela Nacional 2, e o marco geodésico, dinamizando o turismo e afirmando a sua identidade. Ainda assim, permanece um desafio: como transformar visitantes em residentes? Como fazer com que quem chega para conhecer escolha ficar? São questões que exigem respostas que ultrapassam a escala local e que continuam a desafiar as políticas de coesão territorial.
Por fim, o Sardoal. Um concelho onde património, cultura e comunidade continuam a desempenhar um papel essencial na construção da identidade local. Com destaque para o artesanato potenciado pelas peças de linho, a produção de vinhos de referência internacional e exemplar banda filarmónica que queAo longo das conversas que ali moderámos, tornou-se evidente uma preocupação transversal: a necessidade de garantir igualdade de oportunidades.
A distância não se mede apenas em quilómetros. Mede-se também no acesso à saúde, à educação, aos transportes, aos serviços públicos e às oportunidades de emprego. Mas talvez a maior lição desta viagem tenha sido outra: a de que quem vive nestes territórios não se sente, hoje, isolado. Os acessos são mais rápidos, as ligações mais eficientes e a proximidade ao resto do país já não é o obstáculo de outros tempos. Pelo contrário, o que muitos valorizam é precisamente isso: a paz, a tranquilidade e a ausência do ritmo e do stress urbano. O interior afirma-se, assim, não como um espaço de falta, mas como uma escolha de vida.
A Nacional 2 liga Chaves a Faro e entrelaça histórias de pessoas que acreditam no território onde vivem. E enquanto houver quem acredite, o interior continuará a ter futuro.
A questão é saber se o resto do país estará disposto a acompanhá-lo.