Da qualidade das águas ao medronho, Penacova ainda espera ajuda para recuperar das tempestades
Da doçaria conventual à Rota do Medronho, das experiências turísticas como o amassar do pão nos moinhos de vento e até às águas reconhecidas pelas características únicas, é no quilómetro 238 da Estrada Nacional 2, em Penacova, que as paisagens de natureza chamam a atenção de quem por ali passa.
No entanto, há já três meses que este concelho do distrito de Coimbra sofre com as consequências das tempestades que afetaram o país. Foi esse, de resto, o debate que se levantou no painel da emissão especial do Conta Lá: a necessidade “urgente” de se recuperar o que o mau tempo levou, com o autarca local a defender que a região foi esquecida.
“As atenções ficaram viradas para o que aconteceu no Baixo Mondego e esqueceu-se o resto do território, onde há casos dramáticos, não só em Penacova mas em municípios vizinhos. O que achamos que já devia ter sido resolvido é como é que as ajudas do Governo vão chegar aos municípios, porque os danos foram reportados e estamos há dois meses à espera de quando e quanto é que vamos receber”, admite Álvaro Coimbra, presidente da autarquia de Penacova.
Entre as consequências que ainda hoje se sentem no concelho, é na rede viária que o impacto mais se acentua, com estradas ainda cortadas à circulação. É exemplo disso “a EN100, entre Coimbra e Penacova, e um troço da EN2, junto ao parque de campismo e a praia fluvial, que muita falta nos faz”.
No caso da Nacional 2, são cerca de 300 metros que a autarquia está a tentar junto da Infraestruturas de Portugal que sejam reabertos de forma condicionada. “Temos feito uma pressão muito grande, desde a administração da empresa ao governo para que seja urgente a reparação destas estradas, são vias estruturantes”, admite.
Numa das infraestruturas rodoviárias mais importantes para o concelho, o autarca sublinha ainda o “impacto enorme” que o encerramento da estrada tem para a economia local.
Caldas de Penacova, as águas de excelência que lutam contra os constrangimentos diários
“Manter a excelente qualidade que temos, preservá-la e praticar o preço mais baixo que é possível” é o objetivo das Águas das Caldas de Penacova, há quase três décadas em atividade. Uma missão dificultada pelo corte da estrada de acesso à fábrica.
“O deslizamento foi bastante grave, estivemos parados dois meses, ficámos desligados do país, não podíamos receber nada nem expedir nada”, lembra Urbano Marques, administrador da empresa.
Ao Conta Lá, refere que a faturação baixou “entre os cinco e os seis milhões de euros”. “Penso que será irrecuperável”, admite. Embora a possibilidade de circular numa via permita já o transporte de água, também aqui o preço de mobilidade “elevou a 50%”.
Numa empresa com cerca de 100 funcionários, o empresário admite não ter avançado para lay-off nem falhado nenhum pagamento, mas não nega as dificuldades de continuar a laborar neste cenário, apelando a uma intervenção urgente.
Penacova, a terra do primeiro medronheiro certificado do mundo
Penacova insere-se na Rota do Medronho e é esta uma das principais mais-valias que o território quer promover e levar mais além.
Carlos Fonseca, biólogo e gerente da Medronhalva, sublinha que é à volta deste produto endógeno que estão a crescer áreas que projetam o território como “projeto de desenvolvimento rural que deve servir como exemplo”.
“A maior mancha de medronheiro é aqui na região centro e em Penacova, nesta sub-região, temos grandes manchas. É algo intrínseco à nossa cultura e por isso avançámos para a certificação biológica, somos o primeiro medronheiro certificado do mundo”, diz, sublinhando que “as pessoas quando consomem este produto estão a contribuir para a resiliência e gestão ativa do território”.
Atualmente, há quatro candidaturas na área de investigação em curso “no sentido de trazer valor para estes territórios, porque o medronheiro ainda está muito desconhecido sob o ponto de vista científico e há uma grande mobilização em torno deste produto endógeno, cujo retorno tem que vir para os territórios”, admite Carlos Fonseca.
Mas se as perspetivas são risonhas ao nível do medronho, também no turismo se espera um futuro melhor, com uma obra em construção de uma unidade hoteleira que aumentará a oferta em 80 camas no concelho a partir de 2027.
“Será um investimento de 10 milhões de euros, o maior investimento privado nas últimas décadas em Penacova, para alavancar o turismo de natureza. A unidade hoteleira trará um impulso muito grande e estou em crer que vão surgir atrás muitos negócios”, refere o presidente da Câmara ao Conta Lá.