"De quantos nomes de mulheres se recorda?" Como a história (não) quis guardar o papel feminino na Reforma Agrária

"Mulheres, Terra e Revolução" é um filme, da investigadora Cecília Honório e da historiadora Rita Calvário, que deu origem a um livro com o mesmo nome que está agora a ser lançado com eventos espalhados por todo o país. O seu objetivo é dar voz e cara às muitas mulheres rurais que desempenharam papéis fundamentais na luta contra a ditadura e no processo revolucionário mas a que o desequilíbrio na representação de género negou e continua a negar a visibilidade devida. 
Tiago Oliveira Jornalista
25 abr. 2026, 07:00

Trabalhadoras, agricultoras, líderes, revolucionárias, sobreviventes, as mulheres da reforma agrária desempenharam um papel fulcral num dos períodos mais complexos da história recente de Portugal, mas que a história, passe o plenoasmo, se encarregou convenientemente de passar para o segundo plano. Algo que ocorreu quase ao mesmo tempo em que assumiam uma postura de garra e força e que o passar dos anos foi reforçando, enquanto algumas das conquistas daqueles tempos se esvaneceram. Mas o seu papel na garantia de outras que ainda estão em vigor e sob ataque, mais do que nunca, urge ser recordado.

"A participação das mulheres rurais na Revolução de Abril foi decisiva, considerando que elas se envolveram, organizaram, em alguns casos lideraram, e que as suas lutas se traduziram em ganhos observáveis em diferentes domínios – da sociabilidade e participação políticas à conquista de direitos efetivos". Quem o diz é Rita Calvário, investigadora integrada do DINÂMIA'CET-Iscte, o Centro de Estudos Socioeconómicos e Territoriais da Universidade de Lisboa, e Cecília Honório, doutorada em História das Ideias Polìticas e professora do Ensino Secundário, que estão agora em viagem pelo país a lançar o livro "Mulheres, Terra e Revolução", sob a chancela da editora Tinta da China.

A obra - pode consultar as datas de apresentação AQUI - é um prolongamento em escrita do filme com o mesmo nome que já haviam realizado e que retrata precisamente a vida destas mulheres, o papel que tiveram, e as dificuldades a que foram sujeitas: "A sub-representação das mulheres como sujeitos políticos condicionou a sua assunção como protagonistas do processo revolucionário e, por maioria de razão, das mulheres rurais".

"Chegamos aos anos 70 - quer antes, quer no quadro revolucionário - com representações das mulheres rurais que as vinculam, sobretudo, ao atraso, ao analfabetismo, à proximidade com a natureza e à subordinação aos patrões e aos seus interesses. Estas imagens remeteram para a sombra o papel destas mulheres e condicionaram a análise da sua intervenção", acrescentam.

Tomar a palavra

O que não é sinónimo de não terem feito sentir a sua presença. Antes pelo contrário. "Houve avanços quer no plano da participação, quer da organização, quer, nalguns casos, de liderança. Elas não foram a maioria das dirigentes sindicais, nem nas direções das corporativas, nem as suas lutas mudaram radicalmente as relações de género", explicam, com a certeza que a sua pesquisa "não se centrou neste copo meio vazio". Porque se é certo que "não foram maioria", tanto "há dirigentes sindicais, como há mulheres nas comissões sindicais locais", assim como mulheres que "tomaram a palavra em vários encontros/iniciativas, tal como se envolveram nas manifestações, e noutros protestos, ou se auto-organizaram para participarem em igualdade nas assembleias da cooperativa.

Encontram-se aqui testemunhos destas vertentes que permitiram a Rita Calvário e Cecília Honória "fazer a inscrição dos seus nomes e dos seus contributos", com "a informação recolhida" a apontar "para uma inicial resistência dos homens que o tempo superou, sobrepondo-se o respeito pelo que elas eram e faziam".

E conseguiram objetivos tangíveis no mundo rural ao verem "reconhecido o seu trabalho e o seu direito ao trabalho e ao salário". Tiveram "ganhos na tomada de iniciativa e da palavra em assembleias, nas Casas do Povo e noutros contextos", assim como "há direitos que foram conquistando, da Segurança Social a equipamentos sociais, como as creches", entre outros exemplos. 

Amuletos das lutas políticas

Só que no meio de um exemplo de luta, que transcendeu as amarras culturais e de género difíceis de apagar em gerações, quanto mais em anos, há uma interrogação que as autoras deixam quando questionadas sobre a memória historiográfica do papel feminino na Revolução e na Reforma Agrária: "De quantos nomes de mulheres se recorda? Mas sabe que elas estão nas ruas, nos campos, nas fábricas, nas manifestações e que as pode encontrar facilmente nas imagens de arquivo".

"Os anos 70 foram débeis quanto ao papel das organizações de mulheres e às lutas pelos seus direitos", elaboram. "A urgência do processo revolucionário, hora a hora, secundarizou o seu papel e os seus direitos nas 'grandes palavras' do tempo, como Revolução ou Luta de Classes. As causas das mulheres eram amuletos das lutas políticas, se bem que alguns movimentos e causas tenham tido impacto considerável como a formação do MLM [Movimento de Libertação das Mulheres, grupo feminista de luta pelo direito à igualdade de oportunidades e contra a discriminação de género, fundado a 7 de maio de 1974 por Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno]". 

A hora é de resgate dessa história de luta, longe do esquecimento a que procuram remetê-la, com o livro e o documentário a surgirem "do encontro de duas perspetivas de investigação diferentes, onde as mulheres e os seus direitos importam". Em ambos, "há reconhecimento do estatuto-sombra das mulheres rurais" como "vontade de fazer esta disputa da memória". E uma certeza: "Nos campos, o poder popular não se construiu sem elas".