"De quantos nomes de mulheres se recorda?" Como a história (não) quis guardar o papel feminino na Reforma Agrária
Trabalhadoras, agricultoras, líderes, revolucionárias, sobreviventes, as mulheres da reforma agrária desempenharam um papel fulcral num dos períodos mais complexos da história recente de Portugal, mas que a história, passe o plenoasmo, se encarregou convenientemente de passar para o segundo plano. Algo que ocorreu quase ao mesmo tempo em que assumiam uma postura de garra e força e que o passar dos anos foi reforçando, enquanto algumas das conquistas daqueles tempos se esvaneceram. Mas o seu papel na garantia de outras que ainda estão em vigor e sob ataque, mais do que nunca, urge ser recordado.
"A participação das mulheres rurais na Revolução de Abril foi decisiva, considerando que elas se envolveram, organizaram, em alguns casos lideraram, e que as suas lutas se traduziram em ganhos observáveis em diferentes domínios – da sociabilidade e participação políticas à conquista de direitos efetivos". Quem o diz é Rita Calvário, investigadora integrada do DINÂMIA'CET-Iscte, o Centro de Estudos Socioeconómicos e Territoriais da Universidade de Lisboa, e Cecília Honório, doutorada em História das Ideias Polìticas e professora do Ensino Secundário, que estão agora em viagem pelo país a lançar o livro "Mulheres, Terra e Revolução", sob a chancela da editora Tinta da China.
A obra - pode consultar as datas de apresentação AQUI - é um prolongamento em escrita do filme com o mesmo nome que já haviam realizado e que retrata precisamente a vida destas mulheres, o papel que tiveram, e as dificuldades a que foram sujeitas: "A sub-representação das mulheres como sujeitos políticos condicionou a sua assunção como protagonistas do processo revolucionário e, por maioria de razão, das mulheres rurais".
"Chegamos aos anos 70 - quer antes, quer no quadro revolucionário - com representações das mulheres rurais que as vinculam, sobretudo, ao atraso, ao analfabetismo, à proximidade com a natureza e à subordinação aos patrões e aos seus interesses. Estas imagens remeteram para a sombra o papel destas mulheres e condicionaram a análise da sua intervenção", acrescentam.
Tomar a palavra
O que não é sinónimo de não terem feito sentir a sua presença. Antes pelo contrário. "Houve avanços quer no plano da participação, quer da organização, quer, nalguns casos, de liderança. Elas não foram a maioria das dirigentes sindicais, nem nas direções das corporativas, nem as suas lutas mudaram radicalmente as relações de género", explicam, com a certeza que a sua pesquisa "não se centrou neste copo meio vazio". Porque se é certo que "não foram maioria", tanto "há dirigentes sindicais, como há mulheres nas comissões sindicais locais", assim como mulheres que "tomaram a palavra em vários encontros/iniciativas, tal como se envolveram nas manifestações, e noutros protestos, ou se auto-organizaram para participarem em igualdade nas assembleias da cooperativa.
Encontram-se aqui testemunhos destas vertentes que permitiram a Rita Calvário e Cecília Honória "fazer a inscrição dos seus nomes e dos seus contributos", com "a informação recolhida" a apontar "para uma inicial resistência dos homens que o tempo superou, sobrepondo-se o respeito pelo que elas eram e faziam".
E conseguiram objetivos tangíveis no mundo rural ao verem "reconhecido o seu trabalho e o seu direito ao trabalho e ao salário". Tiveram "ganhos na tomada de iniciativa e da palavra em assembleias, nas Casas do Povo e noutros contextos", assim como "há direitos que foram conquistando, da Segurança Social a equipamentos sociais, como as creches", entre outros exemplos.
Amuletos das lutas políticas
Só que no meio de um exemplo de luta, que transcendeu as amarras culturais e de género difíceis de apagar em gerações, quanto mais em anos, há uma interrogação que as autoras deixam quando questionadas sobre a memória historiográfica do papel feminino na Revolução e na Reforma Agrária: "De quantos nomes de mulheres se recorda? Mas sabe que elas estão nas ruas, nos campos, nas fábricas, nas manifestações e que as pode encontrar facilmente nas imagens de arquivo".
"Os anos 70 foram débeis quanto ao papel das organizações de mulheres e às lutas pelos seus direitos", elaboram. "A urgência do processo revolucionário, hora a hora, secundarizou o seu papel e os seus direitos nas 'grandes palavras' do tempo, como Revolução ou Luta de Classes. As causas das mulheres eram amuletos das lutas políticas, se bem que alguns movimentos e causas tenham tido impacto considerável como a formação do MLM [Movimento de Libertação das Mulheres, grupo feminista de luta pelo direito à igualdade de oportunidades e contra a discriminação de género, fundado a 7 de maio de 1974 por Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno]".
A hora é de resgate dessa história de luta, longe do esquecimento a que procuram remetê-la, com o livro e o documentário a surgirem "do encontro de duas perspetivas de investigação diferentes, onde as mulheres e os seus direitos importam". Em ambos, "há reconhecimento do estatuto-sombra das mulheres rurais" como "vontade de fazer esta disputa da memória". E uma certeza: "Nos campos, o poder popular não se construiu sem elas".